segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Instante no bistrô


Cafe Wien, por Kazze. 11/05/2008. Creative Commons


No bistrô de paredes cereja pouso o guardanapo e afasto o prato, satisfeita. Espio as mesas ao redor, vazias quase todas. Já são horas.
A janela alta de tempos tão idos de repente bate, com violência. Minha dormência um átimo cede. Vejo o vento embravecido a perturbar palmeiras e toldos brancos.
Chove de soco como se chovendo estivera há anos.
Os poucos comensais olham também pra fora. Suspiros, sonolentos resmungos, olhares rápidos aos ponteiros, a prever banhados contratempos.
Piso no antigo piso de madeira, insistente. Pec pec pec, martelo a ponta do sapato. Agora é que são elas. E já são horas, mais que horas.
Ah, vou é prolongar o ócio, decretar feriado, mais um espresso por favor. E uma caneta.
Pra rabiscar desastrados traços, desenhos toscos e tolos devaneios.




* * *

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mais de Cecília


Tomo nos olhos delicadamente


(Cecília Meireles, Solombra)


Tomo nos olhos delicadamente

esta noite - jardim de puro tempo

com ramos de silêncio unindo os mundos.


Tudo quanto quisesse aqui se encontra:

nos arroios de estrelas - pelos bosques

onde há risos (e próximos soluços?).


Sinto perfume e orvalho - imagens tênues

que inventa a solidão para fazer-se

de repente saudade. E vejo em tudo


essas cansadas lágrimas antigas

essas longas histórias sucessivas

com seus berços e guerras - glórias? - túmulos.


Recolho a noite em minhas pálpebras.



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ninho

* * *

Da vidraça espio quieta a construção do ninho. Quero-me invisível, a não turbar o labor amoroso. A nova estação desabrocha novos cuidados e afetos. Incessantes vôos de partida e retorno. A ponta do bico carrega mais um pedaço que acolhe a vida. Materialidade de um começo. Solene e muda atrás da vidraça espio a dedicação sábia, a arquitetura precisa. Oculto-me, não faço ruído. Quero absorver a natural confiança de cada pouso, de cada novo vôo, cada movimento consciente e cristalino. Pensativa na vidraça sigo a construção e carrego-te comigo. É tempo de eu também, amor, construir teu ninho.

* * *

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Saindo do forno


Divulgo aqui a publicação da obra coletiva Bioética e Responsabilidade, que tive a honra de co-organizar ao lado da Profa. Dra. Judith Martins-Costa. Pelo selo da Editora Forense. Segue resumo:

Nesta obra reúnem-se autores nacionais e estrangeiros analisando a bioética e as questões suscitadas pelo progresso biotecnológico pelo prisma da responsabilidade, noção central que atua como o fio condutor a perpassar as diferentes abordagens. Trata-se da responsabilidade em suas dimensões ética, social e jurídica, como noção voltada ao presente e ao futuro, às sociedades contemporâneas e à tutela das futuras gerações. A obra une textos de cunho filosófico e de fundamentação ético-jurídica a textos que buscam enfrentar, por meio da dogmática jurídica, a complexidade de questões específicas – tais como a pesquisa em seres humanos, o consentimento, a clonagem, o acesso ao material biológico humano, as informações genéticas, o diagnóstico pré-implantatório, as patentes, o fim da vida –, resultando em importante contribuição a orientar reflexões e fomentar debates que envolvem múltiplos campos do saber, como o direito, a filosofia e as ciências da saúde.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Justiça para Flávia



A trágica história de Flávia e a luta de sua mãe, Odele, já estiveram no efêmeras letras. Leia aqui.


sábado, 23 de agosto de 2008

As ruas da cidade

Já não reconheço as ruas
quando meus passos percorrem a calçada antiga.
As pedras as mesmas, as mesmas árvores,
o sabiá e o lilás das campainhas.

Do velho armazém nada alterado
e em pé segue a casa do professor.
O céu anil do outubro na cidade
pinta de ares serenos a tarde.

Mas já não reconheço as ruas
quando piso meus passos pequenos
e respiro o concreto imponente e feio.

Quando vejo aquele homem na calçada
que dorme sobre nada e nada sonha
e aqueles que passam apressados indiferentes irados
e nada vêem.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Machado e Rosa

Aproveito para divulgar um evento bem interessante que ocorre neste mês, em 3 encontros nos dias 6, 13 e 20, mais um colóquio no dia 21, aqui em Porto Alegre - para quem se interessa sobre as interfaces entre a literatura, a ética, a filosofia, a psicologia, o direito...
Para mais informações e inscrição, www.filosofialiteratura.org




domingo, 3 de agosto de 2008

Bentornati

O blog andou em ..stand.by.. nos últimos tempos. Fechou 1 ano de existência assim, quase abandonado, sem direito a bolo nem vela. Correndo o risco, mal sabe ele, de encerrar atividades.

Mas as efêmeras letras repensaram e voltaram, com leves modificações: talvez menos expostas, com um acanhamento salutar. E mais esporádicas, pra não aborrecer demais ninguém e pra permitir a conclusão de uma tese que se prolonga já uma insensatez.

Bentornati, dunque, aqueles que ainda não tenham desistido.

Abraços.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O quarto, uma varanda

Nestas manhãs porto-alegrenses feitas de bruma, o pensamento escapa do aqui e do agora. A manhã se faz noite, a cidade some entre espessa névoa. O concreto transformado em mar imenso, o quarto uma varanda para outros mundos. Viajo com Cecília.

Distância
(Cecília Meirelles)

Quem sou eu, a que está nesta varanda,
em frente deste mar, sob as estrelas,
vendo vultos andarem?

Sabem, acaso, os vultos, quem vão sendo?
Sentem o céu, as águas, quando passam?
Ou não vêem, ou não lembram?

Como alguém deste mundo para a lua
dirige os olhos, meditando coisas
e assim no vago mira.

- Para este mundo vão meus pensamentos,
tão estrangeiros, tão desapegados,
como se esta varanda fosse a lua.

(em: Mar absoluto e outros poemas)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Tarde de hortelã


Johnny Katchoolik, Untitled, 2008. Creative commons


Entre a faca e o tomate,
pimenta, alho e cebola,
entre vidros de conservas,
entre temperos e ervas

preparo a tarde,
cozinho idéias,
acrescento metas,
misturo bem.

Entre o salgado da lágrima
e a acidez do anseio,
entre amargos receios

colho um ramo de hortelã
e escolho o doce alento
da fruta, do mel, do beijo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Mão Dupla


No dia 6 deste mês, às 19 horas, acontece na Livraria Cultura de Porto Alegre o lançamento do livro juvenil Mão Dupla, do escritor gaúcho Christian David, publicação da Editora Artes e Ofícios. Segue o resumo:

“Após um infeliz acontecimento, o jovem Tiago tem sua vida transformada. Ao ver-se diante — ou no centro — de tantas transformações, precisa buscar uma forma de entender o que a vida lhe tirou. Precisa encarar o dia-a-dia de um jeito diferente. Novo olhar sobre o já vivido? Ao buscar(-se), encontra novos caminhos e uma surpresa boa: há muitas possibilidades de ser, de viver, de se relacionar com os outros e de olhar para si mesmo. Numa narrativa rápida, o autor revela toda a angústia de um adolescente que precisa encarar a vida à bordo de um corpo diferente, corpo no qual falta um pedaço. Esse, o “grilo”: em plena adolescência, fase de inseguranças e dúvidas, Tiago precisa enfrentar, ainda, o medo de não ser aceito e de não conseguir encontrar seu lugar no mundo”.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

feminino insular

(Lena Gal, Canto da manhã)

quero ser como as mulheres de Lena Gal
tantas mulheres dentro de mim.

deusas camponesas
delicadas mães amigas
sensíveis bordadeiras sensitivas
irmãs cúmplices conselheiras
sonhadoras misteriosas filhas.

sábias dançarinas
a correr com o vento.

mulheres ninfas, mulheres fofas
mulheres jovens e maduras
mulheres fadas, mulheres bruxas
mulheres diversas mas tão iguais
mulheres todas...

ah, quero ser como as mulheres de Lena
na terra da brisa perfumada!

suspiros de concha
pegadas na areia
os risos alíseos
um céu de pensamentos
num olhar infinito.

devaneios de ilha.

o feminino insular
não hermético
desconfiado
isolado
não.

feminino afetivo
comunicante, íntimo
que ao acolher
permite silêncios
respeita espaços e tempos.

feminino
que preserva os mistérios
as paixões singulares
não perturba as saudades
as inquietações da alma.

quero ser feminino insular
como as mulheres de Lena…

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Espelho

(poesia de Dolores Mascarenhas Cantera de Campos,
extraída do livro “Serpentinas”, 1998)



Não quero ser outra
quero ser a que sou
olhando-me no espelho.
Por que?
- ando me buscando
pesquisando
descobrindo
em cada côncavo da alma.
Sou rica
nas emoções que sinto –
meus pensamentos de paz.
Tenho identidade – ternura – sonho
vontade de voar.
Nem sempre me reconheço –
as imagens deformam
o contorno do coração.
Quando os olhos parecem calmos
existe um vulcão no meu silêncio.
E o riso –
a luz que cintila na lâmina prateada?
- é a ânsia de abraçar
sentir-me humana
confiante
bela –
o amor fluindo do sorriso
e eu – sendo eu...



Dolores Mascarenhas Cantera de Campos
Nasceu em Bagé/RS. Poeta. Fez seus estudos na terra natal e no Rio de Janeiro. Cursou o Instituto de Belas Artes, diplomando-se em História da Música, Harmonia e Piano. Tem poemas premiados. É autora dos livros Poesias (1944), Carícia (1954), Malacacheta (1981) e Serpentinas (1998). Seu quinto livro, Círculos, tem publicação prevista para este ano.
E também é minha avó!

sábado, 3 de maio de 2008

Hatoum em Porto Alegre


Foi muito bacana, na semana passada, o bate-papo com Milton Hatoum na Livraria Cultura de Porto Alegre, mediado pelo Luís Augusto Fischer (e que contava na platéia com a presença do Veríssimo). O encontro se deu por ocasião do lançamento do novo livro do escritor amazonense, a novela Órfãos do Eldorado (Ed. Companhia das Letras). Hatoum falou, entre uma porção de coisas, sobre seu processo criativo, caminhos e escolhas literárias, influências iniciais, o encontrar seu próprio estilo e sua própria linguagem, o papel dos mitos na sua narrativa, sobreviver como autor (escrever pelo menos 30 livros, como aconselhava Jorge Amado, para se poder viver de direitos autorais? Complicado...), o tema da Amazônia e de Manaus, tão presentes nas suas obras, e a vontade, agora, de um distanciamento, seguir por outras trilhas.

Confortante, para quem escreve, escutar Hatoum falar da eventual sensação de inutilidade quanto àquilo que se está fazendo, a escrita literária (o mesmo valendo para a escrita ensaística ou acadêmica, diga-se...). Meses e anos de dedicação a algo que para as pessoas é invisível... sensação ingrata de não-trabalho, inatividade. Penso: até que a gestação termine e chegue o tão aguardado e acalentado momento do parto, a publicação, o lançamento; mas então, a perigosa expectativa de algum reconhecimento, seguidamente frustrada. Bem, é claro que Hatoum não foi tão longe (essas não devem ser preocupações de um autor consagrado), sou eu agora que devaneio e remôo pensamentos...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

No ouvido

(Letícia Möller)
Sarah Klockars-Clauser, amarylis, 2007 - Open Photo


Queria que me dissesse
(baixinho)
o motivo do teu sorriso,
que te ver assim festivo
faz meu peito transbordar.

Queria que me sussurrasse
(no ouvido)
a razão dos olhos límpidos
para que eu possa, querido,
também minha alma aclarar.

Vou te pegar pela mão,
vou te levar bem distante
desde que tu me contes
da felicidade toda.

Porque ando precisando
(benzinho)
teu afago, beijo, carinho
que me digas o mundo é lindo
para a gente que se ama.

O resto são pequenezas
(são cinzas),
frágeis enganos da mente.

São resíduos somente.


quarta-feira, 16 de abril de 2008

Fórum de Literatura Infantil e Juvenil

Divulgo a programação do 2º Fórum Estadual de Literatura Infantil e Juvenil do Rio Grande do Sul, realização das Secretarias de Cultura e de Educação de Porto Alegre, e no qual estarei presente (assistindo):

Datas: 18 e 19 de abril de 2008
Local: Teatro de Câmara Túlio Piva
República, 545 – Cidade Baixa
Porto Alegre/RS
Informações: f. (51) 3289-8072
Site: www.portoalegre.rs.gov.br/cultura
Inscrições no Centro Municipal de Cultura


PROGRAMAÇÃO

18 de abril (sexta-feira)

08:30-09:30
Credenciamento e distribuição de material

09:30-10:00
Abertura

10:00-12:00
Palestra de abertura:
Leitura de Literatura: escrita e escuta

Profa. Marly Amarilla (Universidade Federal do RN)

13:00-18:00
Visitação à Mostra de Literatura Infantil e Juvenil
da Associação Gaúcha de Escritores (AGES)
Programação interativa especial: exposição de banners, colóquios breves com escritores

18:30-20:00
Painel: Qualidade do texto: as diferentes leituras
Criança leitora / Jovem leitor(a)
Profa. Vera Teixeira de Aguiar (PUCRS)
Escritora Anna Claudia Ramos (AEI-LIJ)

19 de abril (sábado)

08:30-11:30
Oficinas
- Como trabalhar com Narrativas (Caio Riter – RS)
- Oficina de leitura de Poesia (Elaine Maritza – RS)
- Práticas para o trabalho com Literatura Infantil e Juvenil (Christina Dias – RS)
- Práticas de Leitura Oral (Mirna Spritzer – RS)
- Criança e Poesia (Telma Scherer – RS)
- Como formar e dinamizar Pequenas Bibliotecas (Nóia Kern – RS)
- Criança e Poesia (Marta Gusmão – MG)
- Técnicas para o trabalho com Literatura Infantil e Juvenil – Celso Sisto – RS)

13:00-16:30
Oficinas
(as mesmas da manhã)

17:00-18:30
Painel 2: Políticas de Leitura: investimento cultural
Programa “Livro Lido” (Cachoeirinha)
Programa “Livro meu” (Caxias do Sul)
Programa “Literatura Infantil e Medicina Pediátrica” (Porto Alegre)
“Jornadinha de Literatura” (Passo Fundo)

18:30
Encerramento

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Verso silenciado

(Letícia Möller)

Os versos deixaram
Mariana
sem aviso,
sem palavra.

Os versos deixaram
Mariana
no silêncio
do seu quarto.

Deixaram Mariana
naquela noite
sem lua
os versos todos.

No silêncio
Na dor
No escuro do quarto
Mariana já não lembra.

Para onde foram
os cantos de amor,
o cotidiano sublime,
a plenitude da vida,

a poesia a invadir a alma?

Cecília, Lila, Florbela.
A voz das poetas
na bruma da noite
calada.

Arrancaram os versos de Mariana.
Extirparam a beleza,
Ancoraram a tristeza
Sepultaram a memória.

Para onde vai Mariana
sem os versos seus?

Mariana
no escuro
no silêncio
do quarto

... não sabe.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Prêmio Lila Ripoll de Poesia


Divulgo aqui a notícia do Prêmio Lila Ripoll de Poesia 2008, instituído pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul com a finalidade de estimular a criação literária e a divulgação de novos talentos, e de recordar e celebrar a poeta gaúcha. Cada candidato pode inscrever-se com até três poesias. As incrições vão até 30 de maio.

Lila Ripoll (1905-1967), nascida na cidade de Quaraí, foi poeta, professora, jornalista e pianista. Colaborou com diversos jornais e revistas literárias e fundou o Grupo de Arte, destinado a promover espetáculos teatrais. Militou no partido comunista, e com o golpe de 64 foi presa, sendo depois libertada por motivo de doença, falecendo poucos anos depois.

Sua obra poética foi marcada pelo engajamento político e pela denúncia das desigualdades sociais e de gênero. Com o livro Novos poemas (1951), conquistou o Prêmio Pablo Neruda da Paz. Escreveu ainda, dentre outros: De mãos postas (1938), Céu vazio (1941), Por quê? (1947), Primeiro de maio (1954), Poemas e canções (1957), O coração descoberto (1961) e Águas móveis (1967).

Para mais informações sobre o concurso, acessar o site da Assembléia Legislativa do RS.

Ainda sobre Lila, no mundo digital se pode ler o artigo Uma paixão urgente pela poesia, escrito pelo Flávio Ilha para a Revista Aplauso, no ano do centenário do seu nascimento (2005): clique aqui.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Grandes Mulheres: Letícia Möller conta Nísia Floresta


Nísia Floresta (1810-1885)



Escritora e educadora, Nísia Floresta é considerada a pioneira do feminismo no Brasil.

Nascida em 1810 em Papari, no Rio Grande do Norte, filha de um advogado português e de uma brasileira, foi batizada com o nome de Dionísia Golçalves Pinto, mas iria adotar o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pelo qual ficou conhecida.

“Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta” (cf. Projeto Memória Viva).

A obra precursora de Nísia é marcada pela defesa dos direitos das mulheres, pela denúncia das condições de opressão vividas pelas mulheres no Brasil. Lutou por um ensino igualitário entre os gêneros, assim como também dedicou-se a escrever em defesa dos direitos dos indígenas e contra a escravidão dos negros, aderindo à causa abolicionista.

Aos 22 anos de idade, Nísia Floresta publica Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, em 1832, construído a partir do texto revolucionário da feminista inglesa Mary Wollstonecraft, Vindications of the Rights of Woman, publicado em 1792. A obra de Nísia, contudo, não se resume a uma tradução literal do texto de Wollstonecraft, sendo uma "tradução livre", onde Nísia adapta o texto à realidade brasileira. Como esclarece Constância Lima Duarte:

“ao invés de fazer simplesmente uma tradução, a autora brasileira aponta os principais preconceitos existentes no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina. (...) Na deglutição geral das idéias estrangeiras aqui chegadas, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as concepções de Mary e devolve um outro produto, pessoal, em que cada palavra é vivida, em que os conceitos surgem das páginas como algo visceral, extraídos da própria experiência e mediatizadas pelo intelecto” (DUARTE, Constância Lima. “Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro-Séc. XIX”. Disponível aqui).

Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens é considerado o texto fundante do feminismo no Brasil. Seu caráter pioneiro fica ainda mais evidente se pensarmos que foi escrito 100 anos antes que o voto das mulheres fosse permitido em nosso país!

Dentre 15 títulos de sua autoria, publicou Opúsculo Humanitário (1853), uma coletânea de artigos sobre a emancipação feminina, o qual recebeu a crítica positiva de Auguste Comte, o pai do positivismo. A troca de cartas entre ambos foi reunida em um volume organizado por Constância Lima Duarte e publicado pela EDUNISC (Cartas Nísia Floresta & Auguste Comte, 2002).

Nísia viveu por muitos anos na Europa, sobretudo em Paris, retornando ao Brasil para voltar novamente à Europa. Morre na França em 1885. Em 1954, seus despojos são transferidos para o Rio Grande do Norte.

O estudo de Constância Lima Duarte, Nísia Floresta: vida e obra (Natal: Editora da UFRN, 1996, 366 p.), apresentado em 1991 como tese de doutorado na USP, é considerado a mais completa biografia de Nísia Floresta.

Para a cronologia da vida de Nísia Floresta, clique aqui.

Para o elenco completo das sua obras, clique aqui.


Letícia Möller

Porto Alegre/RS. Advogada, mestre e doutoranda em direito, pesquisadora em bioética. Escreve crônicas, contos e prosas poéticas, que publica neste blog, no Overmundo e em algumas revistas digitais. Escreve também narrativas infantis e juvenis.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Grandes Mulheres: Karina Fleury conta Maria Antonieta Tatagiba

Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928)

Nascida na bucólica São Pedro do Itabapoana, no interior do Espírito Santo, Maria Antonieta Tatagiba fez história para além da tríade esposa, mãe e dona de casa.

Destemida e impetuosa, não conseguiu realizar seu sonho de ser uma farmacêutica, mas fora professora, diretora de escola, poetisa, colaboradora de jornais e revistas capixabas e de Campos- RJ, além de assumir a direção de um jornal são-pedrense por quase um ano, do qual o marido era colaborador. Soube driblar a angústia e a frustração que poderiam ter-lhe sombreado a alma ao ver que seu desejo de se tornar diferente da maioria das mulheres de sua época não seria realizado. Substituiu os fármacos pelos poemas. Dedicou-se intensamente à produção literária e tornou-se a primeira poeta capixaba editada, em 1927 (um ano antes de ser vitimada pela tuberculose), com a publicação de "Frauta agreste".

Ao longo dos oitenta anos decorridos desde sua morte, Antonieta tem sido lembrada por estudiosos, escritores, amantes das letras capixabas que vêm revisitando, reconhecendo e reafirmando o valor literário de sua obra, sobretudo neste século, e a sua importância como representante feminina da poesia capixaba do século passado.


O RISO


Bendito seja o riso que aos negrores
Da vida, ao infeliz faz olvidar,
Como o vinho, adormece as nossas dores,
De quem sofre é conforto singular.

Disfarça o sentimento sob flores...
Padeces? Trazes na alma algum pesar?
Ri que o riso adormece as nossas dores
E nele um lenitivo hás de encontrar...

Riso é ironia – riso é esquecimento,
Aos tristes dá aspecto de ventura
E faz supor distante o sofrimento...

Riso – invencível arma de mulher
Que, rindo, docemente, com ternura,
Seduz o mundo inteiro, quando quer!

(Maria Antonieta Tatagiba)

Karina Fleury

Karina de Rezende Tavares Fleury nasceu em Vitória, Espírito Santo, em 1966. Formada em Letras e Direito, é professora da Prefeitura Municipal de Vitória, mestranda em Estudos Literários (UFES), pós-graduada em Teoria psicanalítica e práticas educacionais (UNIG). Publicou, em 2007, "Alma de flor- Maria Antonieta Tatagiba: vida e obra" (com o apoio da Academia Espírito-Santense de Letras e da Secretaria Municipal de Cultura- PMV).

Contato: karina.fleury@gmail.com.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8516679878288876

quarta-feira, 19 de março de 2008

Grandes Mulheres: Nydia Bonetti conta Lena Gal

Lena Gal

Nas minhas andanças pela internet, em busca de imagens para ilustrar meus “poeminhas” (postados no http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti), como costumo chamar os poemas que escrevo, quase sempre ligados à terra e à natureza, me deparei com uma tela que me impressionou. Primeiro pelas cores e pelo tom de terra, que já fascinam ao primeiro olhar. Depois pela suavidade e força das expressões e finalmente pela beleza dos títulos poéticos dados a eles. A tela se chamava: “Terra de Brisa Perfumada”, da artista plástica Lena Gal. Fique fascinada por esta pintura. Fui procurar mais informações sobre a artista e sua obra e encontrei o seu site. Minha admiração por seu trabalho só aumentou desde lá. O trabalho dela é incrivelmente belo, lírico e poético. "Pinta a mulher como tema de preferência, mas não de uma forma feminista, mas sim porque o feminino faz parte do seu universo, dela mesma."


"Terra de Brisa Perfumada"


"Mulher, mãe, amiga, a bordadeira, mulher de xales negros, de véus, mulher á janela, sentada à porta, conta-se contos, histórias, e sonhos, olha-se o mar, o horizonte, e espera-se, são as mulheres Terra - Mãe."

"Canto da Manhã"

E como a vida é movimento, qual não foi minha surpresa, quando recebo em e-mail de Lena, dizendo que uma amiga dela, nas suas andanças pela internet, encontrou meu poema “A Ilha”, e mostrou a ela. Lena disse ter ficado muito sensibilizada ao ler o poema, ilustrado por sua tela, pois “a ilha na sua alma universaliza-se na linguagem pictórica, estabelecendo um diálogo intimista, num figurativo poético, pessoal e de grandes alegorias”. Segundo ela mesma a pintura que faz é uma pintura consciente, vem da sua vivência e das suas memórias com forte ligação à terra, à ilha onde nasceu, E no caminho da sua imaginação de mistérios, da procura, e entre saudades e nostalgias inexplicáveis, cria-se nela uma inquietação que deságua na tela branca e nas cores terra.

Biografia (retirada de seu site): Helena Maria Galvão Amaral, artista plástica (Pintora) com o nome artístico de LENA GAL, nasceu em 1957 em São Miguel, Açores. Desde sempre ligada às artes: iniciou-se a partir dos 15 anos de idade com a colaboração em Jornais dos Açores com poesia, contos e temas regionais; em 1990/1 colaborou no Jornal de Sintra, na Página Feminina; freqüentou a Cooperativa de Gravadores Portugueses, a Sociedade Nacional de Belas Artes e a Arco. Considera-se, no entanto, autodidata. Além de utilizar a tela e o papel, dedica-se igualmente ao estudo das técnicas tradicionais de gravura em couro, dando assim início à pintura sobre o couro, com uma filosofia plástica e pictórica própria. Tenta evoluir através de pesquisas, e, nomeadamente introdução de novos processos. Participou em inúmeras atividades pedagógicas das quais refere: animação em expressão plástica, em escolas do ciclo preparatório básico e ateliês de tempos livres. Foi monitora no programa "Artes e Ofícios" do Projeto Sócio-Educativo do Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa. Foi convidada para apoiar ações pedagógicas sobre a Arte e o Couro no Liceu "Durfee" na Bishop Conrelly High School e na Universidade of South Carolina, Spartanburg - EUA.

Site de Lena Gal: http://www.lena-gal.com/
Estes poemas fiz inspirada pelas telas de Lena, que ilustram as postagens: http://www.overmundo.com.br/banco/na-terra-da-brisa-perfumada e http://www.overmundo.com.br/banco/ilha
* * *
Na Terra da Brisa Perfumada
(Nydia Bonetti)

Na terra
Da brisa perfumada
Há sóis vermelhos
Luas prateadas
E dunas
De areias douradas...
Os bichos são mansos
Os pássaros tantos
Gaiolas não há...
A brisa
Traz perfumes
De terras distantes...
(Rosais em flores)
Que se unem
Aos perfumes da terra...
(Alecrins dourados)
Terra de brisa
Leve
Terra de pássaros
Brancos
Cantos e voares
Multicores
Terra de tantos amores...
Quero ir para lá
Quem me levará

Nydia Bonetti
Campinas/SP. Engenheira Civil por profissão escrevo poemas como uma forma de amenizar a dureza do concreto e do aço e a exatidão dos traços e das fórmulas com que convivo diariamente, com o lirismo e a doçura das palavras perseguidos pelos os poetas...
nydiabonetti@bol.com.br
http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti

sexta-feira, 14 de março de 2008

Grandes Mulheres: Saramar Mendes conta Odele e Flávia

Odele e Flávia


Há uma mulher entre tantas que, como todas, carrega sua cruz.
É uma mulher do povo, nem musa, nem estrela. Nenhum poema de renome lançou em versos, sua luta.
Como tantas mulheres, de amor vive morrendo.
É planta, árvore madura e sadia repartindo sua seiva em goles fartos, em imensa doação.
Seu nome é Odele.
Quem a viu por aí chorando? Quem percebeu seu pranto, se nem tempo tem para verter em água, o golpe? Quem vê, da árvore o líquido brotando, de dentro, dentro ao sentir que lâmina crudelíssima quase lhe arranca um ramo?

Odele é mãe de dois lindos filhos: Flávia e Fernando que seriam como tantos outros filhos, não fora a dor que esta mãe carrega, e ainda assim, cada vez mais forte e mais bela em sua luta.
Odele é a mãe da “Flávia vivendo em coma”, como conhecemos a pequena flor, quase abatida no início de sua floração pela irresponsabilidade e a ganância.
Odele é também escritora e poeta, e publica seus textos em http://oficinadepalavras.blogspot.com/

A história de Odele e sua filha? Eu conto um pedaço: Flávia tinha apenas 10 anos quando seus cabelos foram sugados pelos ralos da piscina do condomínio, onde a família morava no bairro Moema, em São Paulo. Foi retirada da piscina e levada para a UTI do Hospital Santa Isabel, em coma. E assim permanece já há dez anos.

"Flávia segue inconsciente, em coma vigil. Abre os olhos durante o dia e os fecha à noite. Mas não interage com o meio ambiente e é completamente dependente para toda e qualquer atividade da vida. Ao longo dos anos, devido ao tempo em que fica imóvel vem adquirindo deformidades severas que torna o quadro ainda mais doloroso e difícil de cuidar" (Odele).

Odele luta há 10 anos por justiça. Há dez anos, espera, os braços fortalecidos na luta diária com seu raminho de frágil existir. Há dez anos, Odele luta, sem desistir.
Ela é meu exemplo de mulher.

Quer saber mais sobre Odele e Flávia? Visite-as em http://flaviavivendoemcoma.blogspot.com/

Em dezembro, escrevi este pequeno poema para Flávia


FLÁVIA, A FLOR E SUA ÁRVORE

Há uma flor profundamente adormecida

e a beleza de sua árvore.

como é a sina das árvores, esta vela

em força, também em dor.

Nem os ventos, os ventos frios dos dias,

que arrancam lamentos entre os ramos e as folhas,

perturbam a linda flor, em seu sono.

Qual princesa dorme a flor,

dos contos de fada, personagem.

Porém nenhum príncipe virá

com seu beijo de acordar

e nem o espera a princesa em flor.

A árvore, cuidadosa, vela.

Sua seiva milagrosa mantém a vida

da linda flor e seu sorriso raro.

A árvore espera que o vento se vá,

ainda que fique a dor.

Se não há príncipe a caminho,

há o dragão da injustiça

a ser combatido todos os dias,

único capaz de vergar a árvore e

deixar solta do ninho, a flor.

(Saramar Mendes)


Saramar Mendes
Funcionária pública, aprendendo a luta com as palavras.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Grandes Mulheres: Cintia Thomé conta Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar (1952-1983)
Expoente da chamada poesia marginal dos anos 70, a poeta carioca Ana Cristina Cesar tornou-se conhecida em escala nacional depois de figurar na antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1976. Ana Cristina viveu mais de uma vez, viajou pelo mundo, estudou literatura e cinema, publicou poesia em edições independentes. Escritora compulsiva produzia poemas, cartas, artigos para jornais e revistas, traduções, ensaios. Entre os principais títulos deixados por Ana C., encontram-se A Teus Pés, Inéditos e Dispersos, e Crítica e Tradução. Ana suicidou-se em outubro de 1983, aos 31 anos.

ANA CRISTINA CESAR, ANA C.
(poesia de Cintia Thomé)

A estrutura inacabada
Talvez a verdade dos fatos
Não dos olhos
Da construção oca
Do salto alto
Na contramão
No vácuo do um
Quase dois
tea for two
Escorre o assassino
Eu,
Vivo nas cabeças
de Madame Tussaud
Derreto solidões
Esculpo saudades
Roberto ainda geme
Nas curvas da Bahia
Tortas vias
Veias secas
Fingidas
Mãos com luva
De Pelica?
O todo da vida
Não de mim
Dos que li
Nem conheci
Mentiras
No risco neon
Do tempo Blue
De mim?
Só a obra fantasma
De mim
Dos meus eus.
“Despe-te dos ruídos”.
Quantos?
Dois? Tantos?
Ah! Esqueci.


Cintia Thomé
Nascida em Campinas, SP. Jornalista, Relações Públicas/Cerimonial e Escritora. Professora Universitária. Assessora de Imprensa e Relações Públicas, do Instituto Agronômico de Campinas e da Secretaria da Agricultura e Abastecimento de São Paulo, por 7 anos. Trabalhou na área de marketing da Ed. Abril . Galerista de Arte por 15 anos. Especializou-se em História da Arte Brasileira. Atualmente ocupa-se com um romance e palestras para iniciantes e empresários sobre História da Arte Brasileira. Prêmios Literários. Consta em diversas Antologias Poéticas. Autora do Livro "Olhos de Folha Minha".

segunda-feira, 10 de março de 2008

Grandes Mulheres: Nydia Bonetti conta Teresa de Ávila


Teresa de Ávila (1515-1582)

Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, foi uma religiosa e escritora espanhola, uma das grandes personalidades místicas de todos os tempos. Considerada um dos grandes gênios que a humanidade já produziu. Mesmo ateus e livres-pensadores são obrigados a enaltecer sua arguta inteligência, a força persuasiva de seus argumentos, seu estilo vivo e atraente e seu profundo bom senso.

Difícil explicar em palavras as emoções que brotam diante da sua poesia, aliás, também como a poesia do seu "irmão" São João da Cruz, ambos figuras preponderantes do “siglo de oro” da poesia espanhola e da nossa cultura, independentemente da religião. É venerada como Padroeira dos Poetas e comemorada no dia 15 de outubro.

De personalidade ao mesmo tempo ingênua e sutil, mansa e combativa, usando uma linguagem popular, cheia de graça e de doçura, com um coração que nunca deixou de bater humanamente, apesar de abrasado de amor divino. Difícil escrever sobre essa fome de absoluto que atormentou Teresa, que enfrentava com desencanto o vazio da eternidade, numa espécie de êxtase às avessas...

VERSOS NACIDOS AL FUEGO DEL AMOR

Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí

después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.

(Teresa de Ávila)

Fiz este poema depois de ler Teresa de Ávila:

Nada...

Chove outra vez

Em mim

Outra vez se faz noite

Mais uma vez me quedo

Diante do meu nada...

Sombra

Mais uma vez

Sou sombra

Mais uma vez sozinha

As minhas mãos vazias

Dor

Choro outra vez

Na noite

A noite me devora

A noite dói em mim

Cansei

Não posso mais

Quero voltar atrás

Mas lá não há mais nada

Na minha frente

Nada...

Bate

Meu coração inquieto

Meu coração não sabe

Que ele anda sozinho

Meu coração não sabe

Que também não é nada...

Olho

Meus olhos no espelho

Pensam que brilham

Os meus olhos não sabem

Que não há brilho

Quando a alma se esconde

E não reflete nada...

Noite

Não há ninguém lá fora

E aqui dentro nada

Os meus olhos cansados

A minha alma aflita

Tremo de medo e frio

Os meus olhos vazios

Diante do meu nada...

Vida

Por que não foi...

Vida

Por que não é...

Vida

Por não volta...

Vida

Por que é nada?!

(Nydia Bonetti)

Uma singela homenagem à Padroeira dos Poetas. Que ela interceda por todas as mulheres e todos os poetas!

Nydia Bonetti
Campinas/SP. Engenheira Civil por profissão, escrevo poemas como uma forma de amenizar a dureza do concreto e do aço e a exatidão dos traços e das fórmulas com que convivo diariamente, com o lirismo e a doçura das palavras perseguidos pelos poetas...

Por que me fiz assim,
milhas de quem
perto de mim?


Ah... Se não fosse a poesia,
meu único contato
com este mundo distante,
que jamais consegui alcançar...

(Nydia Bonetti)

nydiabonetti@bol.com.br
http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti

sexta-feira, 7 de março de 2008

Grandes Mulheres: Cristiane Avancini Alves conta Edith Stein

Edith Stein (1891-1942)

Eis a verdade…

Já faz algum tempo que não conversamos. Por isso, quando pensei numa mulher, pensei nela. Estava com saudades. A correria do dia-a-dia e as preocupações do cotidiano tolhem, por vezes, aquele bom recolhimento pessoal, quando nos encontramos com nós mesmos. E Edith sempre foi uma discreta e forte companhia nestes meus momentos de silêncio interior, tão cheio de vozes, dúvidas, esperanças. Momentos eloqüentes que devo retomar. Eles trazem equilíbrio. Nos inundam de uma suave paz.

Refiro-me a Edith Stein. Ela nasceu em Breslau (na época, pertencente a Alemanha, hoje Polônia) em 1891. Filósofa, discípula de Edmund Husserl, de origem judia. Sua busca pelo conceito da “Verdade” passou do racionalismo acadêmico à experiência pessoal. Da Fenomenologia, defrontou-se com a I e II Guerra Mundial e, com elas, a perda de amigos. Paradoxalmente, uma sensível perda que, por caminhos diversos, a levou ao encontro da obra “O Livro da Vida”, de Teresa de Ávila. Ao finalizar a leitura do livro, diz a si mesma: “Esta é a Verdade”. Entra para a vida carmelitana aos 42 anos de idade, chamando-se, a partir de então, “Teresa Benedita da Cruz”. Refugiou-se da perseguição nazista no Carmelo de Echt, Holanda. Em 9 de agosto de 1942, morre no campo de concentração de Aushwitz.

Já faz algum tempo que não conversamos, mas já faz muito tempo que, direta ou indiretamente, sinto sua coragem. Não falo, aqui, de religião ou linhas filosóficas. Penso na plenitude de “ser”, no desafio de uma mulher que, na sua época, passou da Filosofia ao Holocausto. Edith nos faz lembrar que o verbo “acreditar” é pleno de movimento e desafios. Aceitar a si mesmo neste emaranhado de perguntas interiores é a resposta mais difícil de encontrar. E ela, Edith, foi uma mulher que, ao desafiar, pacificou dúvidas, alimentou esperanças. Diz-se que o seu foi um “Holocausto de Amor” para aquele tempo escuro da humanidade. Seu exemplo traz luz. E ser mulher é ser luz, que nunca há de se ocultar.

Cristiane Avancini Alves
Formada em Jornalismo pela PUCRS em 1999 e em Direito pela UFRGS em 2001. Mestre em Direito Privado pela UFRGS em 2005. Atualmente, é Doutoranda em Ciências Jurídicas pela Scuola Superiore Sant’Anna em Pisa, Itália.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Grandes Mulheres: Renata Bomfim conta Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894- 1930)

Poetisa portuguesa extemporânea para sua época, compôs uma obra multifacetada onde convergem representações que abarcam aspectos como sensualidade, erotismo, aspiração sacerdotal e virginal, dor, angústia, desejo, sonhos, vaidade, questões e temas que refletem certos desejos de fazer dialogar dicotomias, termos opostos, aparentemente irreconciliáveis e lhe conferem uma importante presença ritualística.

Escreveu:

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno
Poisando em ti o meu olhar eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...
[...]
A Vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor!...
As nossas bocas juntas!...

(soneto: O nosso mundo)


Renata Bomfim é Artista Plástica graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo, Arteterapeuta (UCAM- RJ), Especialista em psicossomática (FACIS- SP). Mestranda em Estudos Literários (UFES). Membro do Projeto de Pesquisa do CNPQ: Aproximações regionais: Alentejo Português e Nordeste Brasileiro - Florbela; romanceiros e romance sergipano (UFS).

segunda-feira, 3 de março de 2008

Grandes Mulheres

Retrato de Maria, C. Portinari (1931)



8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Que seja ocasião de refletir. Dia de observar e pensar. De debater o “ser mulher”, a condição feminina em nossa sociedade e em nosso tempo. As conquistas e os eternos desafios, a igualdade formalmente reconhecida e as desigualdades que na prática persistem. A força e a vulnerabilidade do ser mulher. Dia de refletir sobre a convivência (possível!) da emancipação plena e do trabalho, de um lado, com a preservação da feminilidade e o desejo de maternidade, de outro.

Dia, também, de celebrar. Mas celebrar de um modo que não resuma esta data às usuais celebrações banais e tão bem exploradas comercialmente, centradas em uma exaltação feminina de significado trivial ou mesmo caricatural, tão distante do real ser mulher, de nosso modo todo particular - e único - de ser mulher. Não será possível?

Durante todo o mês de março o ..efêmeras letras.. dedicará espaço exclusivo a homenagear as mulheres. Com a colaboração de amigas - poetas, jornalistas, juristas, artistas plásticas... - contamos um pouquinho sobre algumas dentre tantas Grandes Mulheres.

Grandes mulheres

Porque autênticas, porque fortes.
Porque corajosas, porque talentosas.
Porque desafiaram seu tempo.
Porque sensíveis, porque tão humanas,
porque em busca do bem e do belo.

Mulheres que admiramos.
Mulheres que não cabem em estereótipos,
frágeis rótulos.

Mulheres de diferentes tempos e espaços,
que inspiram a cada uma de nós,
a seu modo.

Agradeço desde já a todas estas amigas que me honraram e alegraram em aceitar este convite.
A vocês, mulheres de hoje,
meu muito obrigada.

Letícia.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Reminiscências de Escola


O Reminiscências de Escola, projeto inovador de livro colaborativo, coordenado por Joca Oeiras, reúne 40 crônicas de 25 autores, de 12 diferentes Estados e 19 diferentes cidades brasileiras, compondo um precioso mosaico de lembranças dos tempos de escola que retratam distintas realidades escolares de nosso País ao longo de décadas.

Tenho enorme alegria e satisfação de fazer parte deste grupo especial de autores.
Um grupo de sonhadores, de gente que acredita na escola. E que acredita que recordar nossas vivências escolares é não apenas um exercício (fascinante e ao mesmo tempo perturbador) de voltar a enxergar com olhos de criança, mas também e talvez sobretudo um modo fundamental de REPENSAR A ESCOLA.

Relembrar a escola é repensá-la, é construir pontes entre as heranças do passado, o nosso tempo presentee as expectativas para o futuro. Que futuro queremos para a escola no Brasil? Será que uma das chaves para a resposta não poderia estar no pensar o caleidoscópio formado por nossas inúmeras e tão distintas realidades escolares?

O grupo busca patrocinadores e editoras interessadas na viabilização da publicação impressa deste belo e inovador projeto. Sim, embora o projeto tenha fecundado e crescido em bases virtuais, no seio do Overmundo, sonhamos com o papel, seu cheiro, seu toque, seu irresistível fascínio, de modo a transmitir da melhor maneira possível nossas recordações agridoces (às vezes açucaradas, por vezes amargas de fazer careta) dos inesquecíveis tempos de escola.

Para quem se interessar possa, aqui vão alguns links que explicam o projeto, bem como valiosas manifestações de apoio recebidas:

http://www.overmundo.com.br/banco/pela-publicacao-do-livro-reminiscencias-da-escola

http://www.overmundo.com.br/forum/reminiscencias-da-escola-solidariedade-criativa-no-overmundo

http://www.overmundo.com.br/ banco/como- se-constroi- um-sonho

http://www.overmundo.com.br/banco/reminiscencias-da-escola-sim


Para ler minha crônica, Era uma vez um Jardim de Infância, acesse:

http://www.overmundo.com.br/overblog/era-uma-vez-um-jardim-de-infancia


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Livros ao mar

( Haley, Untitled, 2006. Open Photo)


Tempo de praia pode ser, mais do que nunca, tempo de bons livros. Nestes dias em que tudo é sol, brisa e mar, quando os ponteiros do relógio parecem reduzir seu ritmo e as horas avançam lentas e generosas, que prazer degustar palavras sem pressa, deixar-se seduzir por histórias, aventurar nossa imaginação por outros mundos através das páginas de um livro.

Outro dia peguei-me recordando algumas passadas leituras praianas. Na infância, ler “A casa das quatro luas”, de Josué Guimarães, na preguiça pós-almoço, enrolada na rede para proteger-me do vento. Divertir-me com Mario Quintana em “O batalhão das letras”, leitura a quatro olhos e duplas risadas com meu irmão mais velho. Mais tarde, levar para a areia “O mundo de Sofia”, de J. Gaarder, e “O estrangeiro”, de Camus, que aos 14 anos pouco entendi.

O embalo suave da rede a embalar a leitura. O livro na sacola rumo à beira-mar, indo da canga sobre a areia à sombra protetora do guarda-sol. Perder-se nos labirintos kafkianos, visitar a abadia medieval de “O nome da rosa” de Eco, estudar na Howgarts de Harry Potter, emocionar-se com as desventuras de um circo durante a Grande Depressão americana, no “Água para elefantes” de Sara Gruen. Viajar para outros tempos e lugares, partilhar dos sentimentos e dilemas dos personagens. E, ao interromper a leitura e erguer a vista ao mar, perceber o que nos rodeia: a areia morna sob os pés, as ondas que quebram à frente. A vida leve.

Ao retornar para nossa selva urbana, encontrar entre as páginas dos livros os vestígios do verão: um grão de areia, o milho verde saboreado junto à leitura, as orelhas que nos livros se formaram, de tanto que passaram de mãos em mãos – da tia para o pai, para a filha. São marcas de um verão de emoções compartilhadas: com quem amamos, com nossos amigos, e também um especial e singular compartilhar entre leitor e autor.


PUBLICADO NO JORNAL NH, EM 08/02/2008.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Digressão em tarde de verão

Sol diagonal na parede do quarto,
pelas frestas da veneziana
pinta harmônica geometria.

Dois, quatro, seis,
não sigo a conta,
a mente inquieta.

Pés preguiçosos
pesados ponderam:
reagir à inércia?

Pensamentos como flecha,
corpo cansado,
cria-se impasse.

Cada idéia fugidia
que me atravessa e já se esvai
são mais dois quilos numa perna

... são três cochilos nas mãos.

São olhos compridos
no esforço de contar
a geometria do sol.

Na parede do meu quarto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Um gesto inusitado

Li Sun (Austria/Taiwan; 200703; Open Photo)


São muitas as pessoas, àquela hora, na farmácia. Algumas circulam espiando os produtos, outras esperam atendimento no balcão. O volume de gente aumenta, o ritmo do atendimento é lento. Cresce a impaciência. Todos têm tanto a fazer, cada minuto é precioso. E a pessoa ao lado de repente transforma-se em potencial inimigo – causa de infinitos contratempos jornada afora.

Apóio-me numa perna, troco para a outra, e assim vou. O olhar cansado, suspiro. Eis que um homem, na faixa dos sessenta anos e cuja presença eu não havia notado, estende o braço em minha direção, alcançando-me um papelzinho. Nada diz. Pego o papel desconfiada, pensando “o que este homem está querendo me vender?”. Vejo que ele estende a mesma tira de papel dobrada a algumas outras pessoas. Desdobro a minha já certa do que vou encontrar – um pedido de ajuda, um grito de socorro – e discretamente corro os olhos sobre as linhas.

Não. Não há ali alguma referência a uma condição difícil, ao dinheiro talvez muito necessitado. Há apenas uma mensagem singela, que fala de alegria, de otimismo, de amor ao próximo. Um convite simples a perceber as belezas da vida. Uma cutucada em nossa face defensiva e fechada.

Levanto os olhos ao homem. Ele retribui meu olhar e sorri com o canto dos lábios. Digo baixinho “obrigada”. E algo se transforma: ao meu redor, dentro de mim. Como mágica.

Gesto inusitado.

Não era época de festas, quando o espírito natalino contagia a todos e amor e solidariedade viram palavras de ordem. Era um dia qualquer, de um qualquer mês.

Ah, o poder de um bilhete e um sorriso! E o quanto podem ensinar...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Pensamentos no 1º de janeiro

© J. E. Möller, 2007


Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina.

Meus pés descansam sobre a grama. A abelha sobrevoa meus arredores. O beija-flor corteja a bromélia, regularmente. As araucárias seguem as mesmas. Imóveis, estes pilares silenciosos, guardiões do tempo, formam minha pessoal fortaleza.

(Sou eu quem as observo ou sou por elas observada? Sinto que não me julgam, mas me compreendem)

Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina.

Meu recomeço este ano é por demais evidente. Uma etapa toda nova. Não requer o fixar de metas, e não aconselha o elencar de desejos.

Nada quero que não sentir, escutar, contemplar. Seguir o fluxo natural da vida. Ao menos por um átimo, precioso instante. Busco a harmonia com a terra, o verde, o ar. E assim com o mundo. É este o mundo que me interessa, ora. Outros mundos hoje me importam pouco. Outras opiniões sobre o viver. Outras expectativas.

Não farei minhas alheias expectativas. Não pintarei meus dias com os tons do devido, do recomendável, do previsível.

Eis uma única resolução a gerar, quem sabe, debaixo da tibuchina.