segunda-feira, 10 de março de 2008

Grandes Mulheres: Nydia Bonetti conta Teresa de Ávila


Teresa de Ávila (1515-1582)

Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, foi uma religiosa e escritora espanhola, uma das grandes personalidades místicas de todos os tempos. Considerada um dos grandes gênios que a humanidade já produziu. Mesmo ateus e livres-pensadores são obrigados a enaltecer sua arguta inteligência, a força persuasiva de seus argumentos, seu estilo vivo e atraente e seu profundo bom senso.

Difícil explicar em palavras as emoções que brotam diante da sua poesia, aliás, também como a poesia do seu "irmão" São João da Cruz, ambos figuras preponderantes do “siglo de oro” da poesia espanhola e da nossa cultura, independentemente da religião. É venerada como Padroeira dos Poetas e comemorada no dia 15 de outubro.

De personalidade ao mesmo tempo ingênua e sutil, mansa e combativa, usando uma linguagem popular, cheia de graça e de doçura, com um coração que nunca deixou de bater humanamente, apesar de abrasado de amor divino. Difícil escrever sobre essa fome de absoluto que atormentou Teresa, que enfrentava com desencanto o vazio da eternidade, numa espécie de êxtase às avessas...

VERSOS NACIDOS AL FUEGO DEL AMOR

Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí

después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.

(Teresa de Ávila)

Fiz este poema depois de ler Teresa de Ávila:

Nada...

Chove outra vez

Em mim

Outra vez se faz noite

Mais uma vez me quedo

Diante do meu nada...

Sombra

Mais uma vez

Sou sombra

Mais uma vez sozinha

As minhas mãos vazias

Dor

Choro outra vez

Na noite

A noite me devora

A noite dói em mim

Cansei

Não posso mais

Quero voltar atrás

Mas lá não há mais nada

Na minha frente

Nada...

Bate

Meu coração inquieto

Meu coração não sabe

Que ele anda sozinho

Meu coração não sabe

Que também não é nada...

Olho

Meus olhos no espelho

Pensam que brilham

Os meus olhos não sabem

Que não há brilho

Quando a alma se esconde

E não reflete nada...

Noite

Não há ninguém lá fora

E aqui dentro nada

Os meus olhos cansados

A minha alma aflita

Tremo de medo e frio

Os meus olhos vazios

Diante do meu nada...

Vida

Por que não foi...

Vida

Por que não é...

Vida

Por não volta...

Vida

Por que é nada?!

(Nydia Bonetti)

Uma singela homenagem à Padroeira dos Poetas. Que ela interceda por todas as mulheres e todos os poetas!

Nydia Bonetti
Campinas/SP. Engenheira Civil por profissão, escrevo poemas como uma forma de amenizar a dureza do concreto e do aço e a exatidão dos traços e das fórmulas com que convivo diariamente, com o lirismo e a doçura das palavras perseguidos pelos poetas...

Por que me fiz assim,
milhas de quem
perto de mim?


Ah... Se não fosse a poesia,
meu único contato
com este mundo distante,
que jamais consegui alcançar...

(Nydia Bonetti)

nydiabonetti@bol.com.br
http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti

8 comentários:

Nydia Bonetti disse...

Leticia
Não conhecia esta imagem de Teresa escrevendo... Muito linda! Me emocionou.
Obrigada.
Beijo.

Cintia Thomé disse...

Letícia

Encontar entre as mulheres Teresa D'Ávila e sua estória de luta, juntamente com versos, vãos, caminhos de amor, de Nydia Bonetti, poeta primorosa que sempre edifica a literatura e o maior dos sentimentos:amor. Parabéns a nós todas. Emocionda ,
um beijo.

Letícia Möller disse...

Nydia,

também gostei muito desta imagem, pois alia à posição de religiosa aquela de escritora e poeta.
Por descuido meu, havia ficado de fora a bela poesia que fizeste inspirada pela obra de Teresa de Ávila. Agora já está devidamente publicada, acompanhando a tua homenagem.

Um beijo,
Letícia.

Saramar disse...

Nydia, letícia, Teresa de ávila é, com justiça, a mãe dos poetas.
Eu gosto demais da poesia dela, pormuitos considerada meio sacrílega.
Bobagens religiosas, claro.
A pungência dos versos, a paixão intensa (não necessariamente sexual) são muito emocionantes.
Obrigada por este belo post e pelos poemas maravilhosos, de ambas as poetas.

beijos

Saramar disse...

Voltei para comentar novamente (rsss...).
Nydia, Letícia, eu sou apaixonada por Teresa de Ávila e Nydia encantou-me com seu poema inspirado nela.

Achei em meus guardados (e bagunçados) parte de um poema em que ela descreve o êxtase e vim trazer, apesar de achar que vocês já conhecem.

"«Ao meu lado esquerdo apareceu um anjo em forma corporal. Não era alto mas baixo e muito belo. E a sua face estava tão afogueada (…). Vi na sua mão um longo dardo de ouro, na ponta do qual julguei ver uma pequena chama. Pareceu-me que o fazia entrar de tempos a tempos no meu coração e que ele me perfurava até ao fundo das entranhas; quando o retirava, parecia-me que as arrancava também e me deixava toda abrasada com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer e, no entanto, a doçura desta dor excessiva era tal, que era impossível querer vê-la terminada, e a alma já não se contentava senão com Deus. A dor não era física, mas espiritual, se bem que o corpo aí tivesse a sua parte. Era uma tão doce carícia de amor entre a alma e Deus (…)".

É maravilhoso e inquietante. Eu adoro.

beijos

Nydia Bonetti disse...

Inquietante, Saramar...
Inquietante...
Também me impressiona muito a intensidade das palavras de Teresa!
Divinamente humana...
Beijo!

Cristiane disse...

Cara Nydia,
Eu também acho que nao foi "mera coincidencia" a escolha das nossas homenageadas! Mas o que eu gosto de transparecer é a humanidade de cada uma das nossas mulheres, independentemente de crenças e filosofias. Assim, nos mostramos a nòs mesmas, na riqueza do cotidiano, na simplicidade de "ser". E agradeço novamente a Leticia por nos fazer este maravilhoso convite!
Beijos,
Cris

nydia bonetti disse...

Cristiane
Você tem toda razão. O que fez delas Grandes Mulheres, foi o lado humano... Tão humano, que chega a ser divino...
Também agradeço Letícia por este espaço tão especial.
Beijos,
Nydia