sexta-feira, 5 de maio de 2017

Estudo e(m) liberdade


Itália, 2014. No Festival della Mente, evento europeu dedicado à criatividade que acontece anualmente em Sarzana, litoral da Ligúria, a renomada escritora e professora Paola Mastrocola lança a provocação: o estudo desapareceu.

Em conferência intitulada justamente La sparizione dello studio, Mastrocola observa, com a bagagem de quem lecionou por mais de 20 anos no ensino básico, que se estuda cada vez menos. O hábito do estudo sumiu das escolas e das vidas de crianças e jovens. A imagem de um garoto debruçado sobre um livro, mergulhado na leitura, concentrado e por um momento esquecido de tudo mais, esta imagem estaria em franca extinção.

Ninguém fala no estudo, hoje. "Ninguém se importa”, aponta Mastrocola. Os jornais, a televisão e outras mídias não falam no estudo. E o mais preocupante, as escolas também não. Por paradoxal que possa parecer (e é), a própria palavra estudo foi afastada do mundo escolar. Escola e estudo não são mais expressões de óbvia e obrigatória conexão.

É como se falar no estudo fosse levantar um assunto aborrecido ao extremo. "Parece um assunto de velhos”, diz Mastrocola. Toleramos que os alunos vão a escola e não estudem. Não queremos perturbá-los muito com essa história de imersão nos livros. Afinal, estudar parece ser a antítese do divertimento. E queremos que nossos filhos e alunos se divirtam em tempo integral. Não queremos aborrecê-los, queremos entretê-los.

Esse grave diagnóstico do cenário escolar italiano nos reporta ao nosso contexto brasileiro. E aqui não vamos pensar apenas no ensino básico (do qual reconheço não estar tão próxima para fazer afirmações fortes): vou ousar dizer que o estudo também está desaparecido do ensino universitário. 

O que se pode ver é uma soma de ausência de iniciativa própria dos alunos ao estudo, por um lado, e a preocupação crescente das instituições de ensino em não entediar os alunos e não exigir muito esforço, por outro. Especialmente nas instituições privadas, a voz do aluno-cliente tem um peso quase definitivo, o que leva desgraçadamente a que essas entidades se preocupem prioritariamente em os acontentar e agradar. Nada de grandes exigências, nada de solicitar grandes leituras. Os professores devem ser dinâmicos e performáticos, capazes de manter a atenção de alunos pouco ou nada propensos à concentração e à profundidade. Uma atenção leve e divertida, sem o peso do esforço presente em realmente conhecer, compreender, contextualizar, problematizar.

A verdade é que hoje todos nós, jovens e adultos, priorizamos outras coisas. Vivemos um período de aumento de possibilidades (de entretenimento, de acesso à cultura, de informação) e de aumento do nível de consumo, se comparado a décadas atrás. A internet e o mundo que ela descortina estão permanentemente na palma da nossa mão. E tudo isso traz coisas belas e também avanços, aprimoramentos, democratizações. 

Porém, é inegável que a competição com o velho hábito do estudo e da leitura é ferrenha e desleal (se tudo está na internet, por que devo me esforçar em saber?). E isso talvez por culpa da mentalidade que nós mesmos ajudamos a criar e cultivar: quando nos preocupamos essencialmente em nos entreter e nos manter superficialmente ocupados, com coisas rasas que nos alienem, nos aliviem do cotidiano e não sobrecarreguem nossas mentes fatigadas. Quando valorizamos as celebridades sem conteúdo, cultuamos os famosos de ocasião e damos vivas à mediocridade. E assim tristemente nos enquadramos na definição de Vargas Llosa de sociedade do espetáculo.

Vivemos também uma época de descrença nos resultados que se pode colher com o esforço do estudo. Mastrocola novamente aponta que não mais acreditamos no estudo como gerador de trabalho: a ideia de que se eu estudar, automaticamente conseguirei uma boa colocação no mercado de trabalho e estarei garantido por toda a vida. E essa é uma outra questão grande demais para incluir aqui. De todo modo, podemos nos perguntar: deve ser esta a função principal do estudo?

Estudamos guiados por utilidade somente? Mais do que uma utilidade prática determinada, o estudo serve para nos enriquecer e aprimorar enquanto indivíduos e cidadãos, e antes de mais nada ele deve servir para nos tornar livres. Livres para sermos quem queremos ser, para desenvolvermos nossa personalidade e visão de mundo em múltiplas direções.

Estudo e liberdade. Estudo para a liberdade. E também estudo em liberdade. Diante do cenário escolar pouco favorável para o estudo aprofundado (pois se deve estudar com pressa, de modo fragmentado e na base de esquemas), é preciso lutar pela liberdade de verdadeiramente estudar.


Mastrocola defende 6 liberdades para o estudo - como ela diz, correndo o risco de ser chamada de velha nostálgica por querer salvar esta coisa anacrônica:

  1. A liberdade de ler livros inteiros;
  2. A liberdade de se levar o tempo que quiser, estudando;
  3. A liberdade de não produzir nada depois de se ler ou estudar, até mesmo por anos;
  4. A liberdade de se concentrar sobre um único ponto, ideia ou argumento, e aprofundá-lo;
  5. A liberdade de se fechar para o mundo;
  6. A liberdade de divagar na vertical: aprofundar-se sempre mais, buscando as referências do autor, e as referências das referências, sempre mais fundo.

Um luxo para poucos? Desejo, talvez ingenuamente, que não. Que o estudo em liberdade e para a liberdade possa se tornar direito e realidade na vida de todos nós. Que após um inverno prolongado do estudo desabroche uma primavera sedutora e permanente de amor pelos livros e pelo conhecimento. 

Links:
Site do Festival della Mente: www.festivaldellamente.it

Conferência La sparizione dello studio, de Paola Mastrocola: https://youtu.be/irDSf2JS-fY


Texto publicado originalmente em minha  coluna
no Portal Artistas Gaúchos,
em 04 de maio de 2017.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Andei lendo...

Pó de Parede, Carol Bensimon
Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Virginia Woolf
Nas tuas mãos, Inês Pedrosa
Cenas mínimas (poesia), Maria do Carmo Campos
Osmose: Brasil e Alemanha em Quadrinhos, vários autores
O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe
Autoimperialismo (ensaios), Benjamin Moser
O pequeno herói, Dostoiévski
Submissão, Michel Houellebecq
A outra praia, Gustavo Nielsen
Carolina (HQ sobre vida e obra de Carolina Maria de Jesus), Sirlene Barbosa e João Pinheiro
O duelo, Anton Tchekhov
Longe das aldeias, Robertson Frizero

E estou lendo...

Flores artificiais, Luiz Ruffato

* * *

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Do que a literatura me fez lembrar nesta virada de ano

Para a última semana do ano, passada na quietude das montanhas, peguei três livros meio que ao acaso e os pus na mala sem pensar muito. Um porque comprado há meses na promessa de ser prioridade, outro pela curiosidade de descobrir a voz do autor, mais o outro porque deparei com ele na estante atrevido, se convidando. Não nessa ordem, foram assim eleitos O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, os ensaios de Autoimperialismo, de Benjamin Moser, e Um pequeno herói, novela de Dostoiévski.

Li no ritmo de antigamente, entenda-se, no meu ritmo de antigamente ter 15, 23 anos. Li que devorava páginas e mergulhava entre frases e quase perdia noção de quando e onde. Um ler veloz e profundo ao mesmo tempo, daqueles que há muito eram ausência.

Para mim que sou mais feliz no mergulho solitário que nas formas convencionais de passar férias, foi um belo modo de ver o ano se esvair nas promessas do novo ano (mais nos desejos que nas promessas, na verdade). Que não foi só de leitura o fim do ano, tenho que acrescentar. Imersões nos livros foram até que bem intercaladas com momentos de convívio muito amigo e prazeroso. Respiros bem-vindos para novo submergir em águas fundas.

Foram águas cristalinas, não turvas, de bom augúrio para o ano que inicia. A literatura desenhando imagens do que pode vir a ser se razão e emoção cultivarem bondade, coragem, esperança e amor à beleza.

Nesta virada de ano, a literatura me lembrou que a bondade pode sobreviver ou florescer até mesmo nos ambientes mais hostis. Que é preciso coragem para vencer em meio ao preconceito arraigado em mentes toscas, mas que se pode vencer. Que o amor suaviza arestas e diferenças. Como aconteceu com Crisóstomo e Isaura, com Antonino e Matilde, no romance de Hugo Mãe. Que a dignidade e a pureza de sentimentos são valores a defender com unhas e dentes contra a vilania, a hipocrisia, a inveja e a mediocridade, como fez o pequeno herói de Dostoiévski.

Com Moser, que é preciso lutar pela beleza, que não é capricho, mas necessidade humana. Que a feiúra das cidades abriga uma feiúra moral, e que esta sim é mais difícil de a gente se livrar (mas não podemos perder a esperança). Que importam as pessoas, mais que prédios, shopping centers, monumentos grandiosos, projetos ambiciosos ou conceitos tão geniais quanto vazios de sentido.

A literatura é fantástica por muitas razões, e dentre elas podemos dizer que é fantástica pelo poder de nos despertar do torpor, por dar alento à tristeza e à desesperança, por ajudar a corrigir rumos, lembrar do que importa, inflar nosso peito de valentia. 

Que em 2017 as histórias e as ideias, as narrativas e os ensaios, renovem nosso espírito adoecido nos acontecimentos deste ano sombrio que enfim nos deixa. Que nos tornem plenos de amor, coragem e esperança. Que possamos seguir na construção de nossa própria história, nos deixando conduzir por honestidade de intenções e sentimentos, pela empatia pelo outro, pela beleza de nossos atos e pela confiança em nossa capacidade de sermos melhores do que somos.

Canela, 31 de dezembro de 2016

Letícia Möller

Publicado originalmente em minha coluna
no Portal Artistas Gaúchos, em 02/01/2017