quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Reminiscências de Escola


O Reminiscências de Escola, projeto inovador de livro colaborativo, coordenado por Joca Oeiras, reúne 40 crônicas de 25 autores, de 12 diferentes Estados e 19 diferentes cidades brasileiras, compondo um precioso mosaico de lembranças dos tempos de escola que retratam distintas realidades escolares de nosso País ao longo de décadas.

Tenho enorme alegria e satisfação de fazer parte deste grupo especial de autores.
Um grupo de sonhadores, de gente que acredita na escola. E que acredita que recordar nossas vivências escolares é não apenas um exercício (fascinante e ao mesmo tempo perturbador) de voltar a enxergar com olhos de criança, mas também e talvez sobretudo um modo fundamental de REPENSAR A ESCOLA.

Relembrar a escola é repensá-la, é construir pontes entre as heranças do passado, o nosso tempo presentee as expectativas para o futuro. Que futuro queremos para a escola no Brasil? Será que uma das chaves para a resposta não poderia estar no pensar o caleidoscópio formado por nossas inúmeras e tão distintas realidades escolares?

O grupo busca patrocinadores e editoras interessadas na viabilização da publicação impressa deste belo e inovador projeto. Sim, embora o projeto tenha fecundado e crescido em bases virtuais, no seio do Overmundo, sonhamos com o papel, seu cheiro, seu toque, seu irresistível fascínio, de modo a transmitir da melhor maneira possível nossas recordações agridoces (às vezes açucaradas, por vezes amargas de fazer careta) dos inesquecíveis tempos de escola.

Para quem se interessar possa, aqui vão alguns links que explicam o projeto, bem como valiosas manifestações de apoio recebidas:

http://www.overmundo.com.br/banco/pela-publicacao-do-livro-reminiscencias-da-escola

http://www.overmundo.com.br/forum/reminiscencias-da-escola-solidariedade-criativa-no-overmundo

http://www.overmundo.com.br/ banco/como- se-constroi- um-sonho

http://www.overmundo.com.br/banco/reminiscencias-da-escola-sim


Para ler minha crônica, Era uma vez um Jardim de Infância, acesse:

http://www.overmundo.com.br/overblog/era-uma-vez-um-jardim-de-infancia


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Livros ao mar

( Haley, Untitled, 2006. Open Photo)


Tempo de praia pode ser, mais do que nunca, tempo de bons livros. Nestes dias em que tudo é sol, brisa e mar, quando os ponteiros do relógio parecem reduzir seu ritmo e as horas avançam lentas e generosas, que prazer degustar palavras sem pressa, deixar-se seduzir por histórias, aventurar nossa imaginação por outros mundos através das páginas de um livro.

Outro dia peguei-me recordando algumas passadas leituras praianas. Na infância, ler “A casa das quatro luas”, de Josué Guimarães, na preguiça pós-almoço, enrolada na rede para proteger-me do vento. Divertir-me com Mario Quintana em “O batalhão das letras”, leitura a quatro olhos e duplas risadas com meu irmão mais velho. Mais tarde, levar para a areia “O mundo de Sofia”, de J. Gaarder, e “O estrangeiro”, de Camus, que aos 14 anos pouco entendi.

O embalo suave da rede a embalar a leitura. O livro na sacola rumo à beira-mar, indo da canga sobre a areia à sombra protetora do guarda-sol. Perder-se nos labirintos kafkianos, visitar a abadia medieval de “O nome da rosa” de Eco, estudar na Howgarts de Harry Potter, emocionar-se com as desventuras de um circo durante a Grande Depressão americana, no “Água para elefantes” de Sara Gruen. Viajar para outros tempos e lugares, partilhar dos sentimentos e dilemas dos personagens. E, ao interromper a leitura e erguer a vista ao mar, perceber o que nos rodeia: a areia morna sob os pés, as ondas que quebram à frente. A vida leve.

Ao retornar para nossa selva urbana, encontrar entre as páginas dos livros os vestígios do verão: um grão de areia, o milho verde saboreado junto à leitura, as orelhas que nos livros se formaram, de tanto que passaram de mãos em mãos – da tia para o pai, para a filha. São marcas de um verão de emoções compartilhadas: com quem amamos, com nossos amigos, e também um especial e singular compartilhar entre leitor e autor.


PUBLICADO NO JORNAL NH, EM 08/02/2008.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Digressão em tarde de verão

Sol diagonal na parede do quarto,
pelas frestas da veneziana
pinta harmônica geometria.

Dois, quatro, seis,
não sigo a conta,
a mente inquieta.

Pés preguiçosos
pesados ponderam:
reagir à inércia?

Pensamentos como flecha,
corpo cansado,
cria-se impasse.

Cada idéia fugidia
que me atravessa e já se esvai
são mais dois quilos numa perna

... são três cochilos nas mãos.

São olhos compridos
no esforço de contar
a geometria do sol.

Na parede do meu quarto.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Um gesto inusitado

Li Sun (Austria/Taiwan; 200703; Open Photo)


São muitas as pessoas, àquela hora, na farmácia. Algumas circulam espiando os produtos, outras esperam atendimento no balcão. O volume de gente aumenta, o ritmo do atendimento é lento. Cresce a impaciência. Todos têm tanto a fazer, cada minuto é precioso. E a pessoa ao lado de repente transforma-se em potencial inimigo – causa de infinitos contratempos jornada afora.

Apóio-me numa perna, troco para a outra, e assim vou. O olhar cansado, suspiro. Eis que um homem, na faixa dos sessenta anos e cuja presença eu não havia notado, estende o braço em minha direção, alcançando-me um papelzinho. Nada diz. Pego o papel desconfiada, pensando “o que este homem está querendo me vender?”. Vejo que ele estende a mesma tira de papel dobrada a algumas outras pessoas. Desdobro a minha já certa do que vou encontrar – um pedido de ajuda, um grito de socorro – e discretamente corro os olhos sobre as linhas.

Não. Não há ali alguma referência a uma condição difícil, ao dinheiro talvez muito necessitado. Há apenas uma mensagem singela, que fala de alegria, de otimismo, de amor ao próximo. Um convite simples a perceber as belezas da vida. Uma cutucada em nossa face defensiva e fechada.

Levanto os olhos ao homem. Ele retribui meu olhar e sorri com o canto dos lábios. Digo baixinho “obrigada”. E algo se transforma: ao meu redor, dentro de mim. Como mágica.

Gesto inusitado.

Não era época de festas, quando o espírito natalino contagia a todos e amor e solidariedade viram palavras de ordem. Era um dia qualquer, de um qualquer mês.

Ah, o poder de um bilhete e um sorriso! E o quanto podem ensinar...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Pensamentos no 1º de janeiro

© J. E. Möller, 2007


Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina.

Meus pés descansam sobre a grama. A abelha sobrevoa meus arredores. O beija-flor corteja a bromélia, regularmente. As araucárias seguem as mesmas. Imóveis, estes pilares silenciosos, guardiões do tempo, formam minha pessoal fortaleza.

(Sou eu quem as observo ou sou por elas observada? Sinto que não me julgam, mas me compreendem)

Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina.

Meu recomeço este ano é por demais evidente. Uma etapa toda nova. Não requer o fixar de metas, e não aconselha o elencar de desejos.

Nada quero que não sentir, escutar, contemplar. Seguir o fluxo natural da vida. Ao menos por um átimo, precioso instante. Busco a harmonia com a terra, o verde, o ar. E assim com o mundo. É este o mundo que me interessa, ora. Outros mundos hoje me importam pouco. Outras opiniões sobre o viver. Outras expectativas.

Não farei minhas alheias expectativas. Não pintarei meus dias com os tons do devido, do recomendável, do previsível.

Eis uma única resolução a gerar, quem sabe, debaixo da tibuchina.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Quando se perde a humanidade

Seguindo o já tradicional espírito de final de ano e cedendo à tentação das retrospectivas e das listas de “melhores do ano”, atendemos ao chamado feito pelo Portal Literal que convida a responder:

Qual o melhor livro que você leu em 2007?

O bacana desta lista é permitir sair do esquema dos previsíveis “mais vendidos”. A diversidade e o interesse da lista dependerá das contribuições de nós, leitores. Vale do último lançamento ao clássico, não importando o ano de edição. Para participar, vá até o Portal Literal. O resultado deve sair ainda neste mês.

Abaixo confira minha escolha em 2007.

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É isto um homem?
Primo Levi


Rocco, 1988
Original: Se questo è un uomo (Einaudi, 2005)


Há 20 anos da morte de Primo Levi, e 60 da primeira publicação do livro, “É isto um homem” revela-se uma obra sempre atual e de fundamental importância. Quando se deixa de ser humano? Quando se perde toda a humanidade? A terrível realidade dos campos de concentração nazistas evidencia o horror e a barbárie de que o homem é capaz, quando vê o Outro não como sujeito dotado de igual dignidade mas como objeto, não como ser humano mas como coisa a ser suprimida – e assim, quando renuncia também o algoz à sua humanidade. Primo Levi, num misto de diário e de arguta análise sociológica e psicológica, narra em modo notável e preciso a (sobre)vida nos campos de Auschwitz, com o conhecimento de quem sofreu na própria pele e viu com os próprios olhos o período mais negro da história.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Quando qualquer coisa significa qualquer coisa



















Foto: Road Crossing, Gary Heayes, Open Photo


Que dias, os nossos. Quando se pode dizer qualquer coisa significando qualquer coisa. Qualquer coisa significando o seu contrário. É o triunfo da pura retórica.

Os acontecimentos dos últimos dias ilustram profusamente este dizer qualquer coisa significando qualquer outra coisa. E devem preocupar.

Quando “democracia” significa desrespeito de toda regra democrática, ausência de liberdade, boicote à oposição, pretensões ditatoriais envernizadas, nem bem mascaradas. Quando a fala dos “direitos humanos” é usada para justificar a guerra e os interesses econômicos por detrás dela (esta não é nova). Quando as palavras fundamentais de “amor” e “esperança” escondem discursos de intolerância e prepotência.

As efêmeras, delicadas letras, por vezes rebelam-se...

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Entrevista

Entrevista concedida a Alexandre Capilé (Editora Juruá), em ocasião do lançamento de meu livro, “Direito à morte com dignidade e autonomia” - março 2007


1- O que a motivou a escrever sobre um tema tão delicado e controvertido?

As questões da bioética sempre me fascinaram. Meu estudo do direito praticamente coincidiu com meu interesse nesta área, visto que comecei a pesquisar em bioética já no segundo ano da faculdade. Talvez este interesse se explique pelo fato de eu vir de uma família de muitos médicos... Assim, me instigava a busca por melhor compreender as interfaces entre os âmbitos das ciências da saúde, da ética e do direito. Neste percurso inicial de pesquisa, tive a felicidade de poder contar com a orientação da professora Judith Martins-Costa, a quem devo as primeiras lições de bioética. Com relação ao tema específico do final da vida, que abordo no livro, penso que contribuiu fortemente a motivar-me o meu envolvimento no “Projeto Literatura Infantil e Medicina Pediátrica: uma aproximação de integração humana” (PLIMP/Faculdade de Letras da PUCRS e Setor de Pediatria do Hospital São Lucas da PUCRS), quando, ao contar histórias às crianças hospitalizadas e aos seus familiares, acabei por ingressar em um contexto muito particular, felizmente nem sempre feito de doenças graves ou fatais, mas que de qualquer modo tornava evidente sua delicadeza e peculiaridade. Os sentimentos por vezes de esperança, por vezes de desalento e angústia, a força, o cansaço, o medo, as pequenas e grandes vitórias, as grandes tristezas. É certo que, em se tratando de pacientes crianças, há aspectos particulares envolvidos, e a questão da autonomia forçosamente vem relativizada em prol da proteção da criança (busquei abordar sucintamente esta situação específica em uma secção do livro). Na obra, porém, o foco é dado àqueles doentes adultos que, quando em estado terminal e em condições de capacidade e consciência, devem poder expressar sua vontade de forma autônoma (sempre informada) e, de acordo com seus valores, crenças e convicções, decidir como desejam transcorrer os últimos momentos de suas vidas. Conversas que tive com a amiga Lívia Pithan, jurista que também se dedica às reflexões bioéticas, contribuíram a sedimentar minha decisão de escrever sobre este tema.

2- Em seu livro é mencionado que o temor que as novas tecnologias não sejam utilizadas em beneficio do homem e da humanidade, e sim para concentrar o poder nas mãos de poucos, gerou a percepção acerca da necessidade de estabelecer-se certos limites ao desenvolvimento tecnológico e à realização da ciência. A senhora acredita que o conhecimento e o desenvolvimento tecnológico possam realmente ser freados e contidos?

Os novos conhecimentos científicos e biotecnológicos adquiridos nos trouxeram significativos benefícios à saúde e um incremento da qualidade e da expectativa de vida. De fato, vivenciamos um cenário de veloz concretização de muitos anseios – o alívio da dor, a superação da infertilidade, a libertação de doenças – graças ao desenvolvimento de novos fármacos, aparelhos e procedimentos médicos, de novas formas de reprodução humana e da pesquisa em engenharia genética. Contudo, os avanços das ciências biomédicas suscitam uma série de questionamentos de ordem ética, política e jurídica, acerca do modo de fazer ciência e acerca dos usos dos resultados das pesquisas e das novas tecnologias à saúde humana, e também ao ecossistema. Diante dos riscos comportados por um uso arbitrário dos novos conhecimentos científicos, e percebendo-se que seus efeitos alcançam as demais esferas da vida, faz-se indispensável compreender a ciência não como experiência isolada e auto-suficiente, mas como necessariamente indissociável do âmbito da ética (nesta direção se dá, justamente, o surgimento da bioética). Não compete à própria ciência valorar os dados e resultados que ela produz, nem suas possíveis aplicações. Deste modo, é legítimo que uma sociedade estabeleça limites de natureza ética e também jurídica à ciência e à tecnologia, de acordo com valores partilhados e considerados fundamentais. Aqui o importante papel do direito, ao conjugar à normatização os elementos de segurança e coerção. Todavia, com relação ao papel do direito, entendo ser necessário buscar um equilíbrio entre posturas extremas: de um lado, o que podemos chamar de “abuso normativo” (a máxima regulamentação e contenção da ciência, com escarso espaço para a liberdade e o desenvolvimento), e de outro, uma postura de “laissez-faire” (a omissão do direito em favor de uma ampla liberdade científica guiada pela fé inabalável no progresso) – idéia que pude desenvolver em um texto recente. Assim, não se trata de simplesmente frear o desenvolvimento da ciência, muito menos a aquisição de novos conhecimentos, o que é importantíssimo e ao meu ver imprescindível, mas de procurar conciliar a noção de liberdade científica e de esperança no progresso com a noção de responsabilidade e precaução quanto ao modo de fazer ciência e especialmente quanto aos possíveis usos e aplicações dos seus produtos, de forma a tutelar os valores básicos de uma sociedade.

3- A bioética surgiu da necessidade de se usar corretamente as novas tecnologias aos casos referentes à vida, saúde e morte. Qual o destino da ciência sem a ética?

Como afirma Edgar Morin, “a época fecunda da não-pertinência dos julgamentos de valor sobre a atividade científica terminou”. Uma ciência que reconhece a dimensão da reflexão ética é uma ciência capaz de conceber o enraizamento dos valores em uma determinada cultura e sociedade. É, para usar a feliz expressão de Morin, uma “ciência com consciência”. A ciência sem a ética trilharia um caminho certamente autoritário e obscuro, prescindindo da transparência de sua prática e de seus resultados, furtando-se ao debate público em torno de valores partilhados, à deliberação política para a elaboração de leis, e deste modo concentrando cada vez mais o conhecimento e o poder nas mãos de alguns, para satisfazer interesses (políticos e econômicos) particulares.

4- A senhora não acha preocupante o paciente ter o poder de decidir sobre o uso ou não de um tratamento proposto por um profissional capacitado, no caso do médico, sendo esse paciente leigo no assunto?

Em primeiro lugar, a informação é fundamental. Uma boa relação entre médico e paciente requer diálogo aberto e informação adequada acerca do quadro clínico, das opções de terapia e dos respectivos efeitos esperados, de modo a fornecer as melhores condições possíveis para a tomada de decisão. Penso, diversamente, ser preocupante um comportamento paternalista ou autoritário por parte de quem detém o conhecimento técnico-médico, como se a partir deste conhecimento técnico se pudesse deduzir, naturalmente e de forma unívoca, o rumo terapêutico a ser tomado em uma situação de terminalidade da vida. Nestas situações, ao meu ver, falam mais alto os valores e as convicções pessoais do paciente, devendo ser protegido o seu direito ao exercício da autonomia. Pensemos na hipótese em que ao paciente terminal simplesmente não fosse reconhecido espaço de manifestação e decisão, ou ao menos de participação ativa na tomada de decisão! Isto implicaria uma desconsideração da sua liberdade, da existência de uma esfera de sua vida que diz respeito, antes de tudo, a si próprio. O que significa morrer com dignidade? Diferentes respostas podem ser dadas a esta pergunta, o que dependerá da cultura ou dos valores individuais de cada paciente. Concordo com Ronald Dworkin quando diz que importa o modo como morremos. Muitos de nós gostaríamos que este momento final guardasse uma coerência com o modo como vivemos durante toda a nossa vida: com valores e convicções que cultivamos, que nos são caros.

5- Observando a situação pelo ângulo do médico, essa “liberdade”, esse “poder” proposto ao paciente não comprometeria a autoridade técnica e científica do profissional, inclusive vindo a médio e longo prazo comprometer sua capacidade profissional e estabilidade emocional?

Não, se entendermos que o dever do médico perante o seu paciente não é o de curar ou lutar pela cura em todos os casos e a qualquer custo, tampouco o de tomar as decisões pelo paciente. Ser um bom médico não deve ser sinônimo de um comportamento paternalista, de decidir no lugar do doente “pelo seu bem” (de que bem se trata?). Não vejo como o respeito à autonomia do paciente, e a preocupação do profissional de evitar posturas autoritárias, possa comprometer de algum modo a sua capacidade profissional ou a sua estabilidade emocional. Parece-me que os profissionais da saúde devem receber formação no sentido de saber lidar com as situações de terminalidade da vida e de saber distinguir entre os seus valores particulares e o pluralismo de valores que deve caracterizar o ambiente hospitalar e a assistência à saúde (neste sentido, importante reportar-se a Engelhardt). O médico tem o dever de informar o paciente, transmitir-lhe o conhecimento técnico, e não o dever (ou o direito) de valorar pelo paciente. De qualquer modo, entendo ser importante o reconhecimento da possibilidade de alegação de objeção de consciência por parte do médico, quando uma determinada prática ou procedimento contrarie fortemente os seus próprios valores – especialmente em casos de pedido de eutanásia ativa (o matar, para além do deixar morrer), em um contexto onde esta prática seja lícita.

6- Hoje em dia, como os tribunais têm tratado esse assunto, quando provocados a decidir?

Nos últimos dois anos, duas decisões tiveram grande destaque na mídia e reacenderam o interesse da opinião pública mundial e o debate em torno do tema do direito à morte: o caso de Terri Schiavo nos EUA, em 2005, e o caso de Piergiorgio Welby na Itália, em 2006. No primeiro, o diagnóstico era de estado vegetativo permanente, irreversível. Terri não deixara manifestação anterior de vontade por escrito, mas, segundo seu marido, ela lhe manifestara que não gostaria de viver naquelas condições. Após sete anos de batalha judicial entre o marido e os pais de Terri, e depois de esgotadas todas as instâncias e recursos, em 2005 foi enfim decidida a remoção do tubo que a alimentava, de modo a deixá-la morrer. No segundo caso, Welby, portador de uma forma de distrofia incurável que com o passar dos anos tornara-se muito grave, prendendo-o à ventilação mecânica e a tubos de hidratação e alimentação, encontrava-se consciente e completamente lúcido, e manifestara reiteradamente seu desejo de morrer, através de um diário, de um fórum on line de discussão sobre a eutanásia e mesmo com o envio de uma carta ao Presidente da República. Em 16 de dezembro de 2006, Welby tem seu pedido de sedação terminal, seguida de suspensão da respiração artificial, rejeitado pelo tribunal de Roma. O médico italiano Mario Riccio atende ao pedido de seu paciente e desconecta-o do respirador. A morte de Welby dá-se no dia 20 daquele mês. Como se pode perceber, estes casos diferem muito entre si, e diferem também da situação específica que abordo no livro. A limitação de tratamento de pacientes em estado terminal, o que costuma ser denominado de ortotanásia, é um tema menos polêmico, sendo o seu entendimento muito mais pacífico, no sentido de não prolongar um estado penoso quando o tratamento não pode mais surtir qualquer efeito positivo e quando a morte é iminente, especialmente se esta é a vontade do paciente. O que não se confunde com a eutanásia. Estas situações dificilmente chegam aos tribunais, sendo decididas pelo paciente ou seus familiares, quando este não pode se manifestar, em conjunto com os profissionais da saúde. Os comitês de ética hospitalares ou comitês de bioética, de composição sempre interdisciplinar, têm a finalidade de orientar o profissional acerca da conduta eticamente mais adequada e de auxiliar a dirimir conflitos que se estabeleçam entre a equipe médica e o paciente ou sua família. Isto faz com que, na maior parte dos casos, não seja absolutamente necessário ingressar-se na esfera judicial. Na minha opinião, isto é o ideal, que somente pode ser alcançado através de uma boa relação médico-paciente-família.

7- No Brasil, a senhora acha possível o avanço desse tema?

Sim, e boa parte das pesquisas e da produção teórica que se dedicam a este tema e a outras questões conexas apontam nesta direção, ao partirem de uma concepção plural e tolerante da sociedade em que vivemos. Outro motivo para acreditar em boas perspectivas neste tema é a recente resolução do Conselho Federal de Medicina sobre a prática da ortotanásia, ao autorizar a interrupção de tratamento médico extraordinário em pacientes em processo de morte irreversível. Além disso, pensando nos diversos temas da bioética, o debate público bem informado é fundamental, e para que isto seja possível precisamos de educação de qualidade, meios de comunicação sérios e comprometidos com a precisão das informações, e um amplo espaço de manifestação e deliberação coletiva. Enfim, temos pela frente um longo mas indispensável caminho a ser trilhado.

8- Por fim, o que a autora diria às famílias que por ventura venham a passar ou estejam passando pela situação de ter um familiar sofrendo com as técnicas aplicadas no seu tratamento, e aos médicos e advogados que eventualmente se deparem com esse tipo de situação durante o dia-a-dia profissional?

A todos, penso que o mais importante seja destacar o respeito ao doente terminal, àquele que se encontra nos momentos finais de sua vida, e que provavelmente sofre. Buscar compreender a sua condição e os seus sentimentos, e, principalmente, esforçar-se por “ver o mundo através dos seus olhos”, recordando os valores, convicções e posicionamentos manifestados ao longo de sua vida. Buscar o diálogo franco e o entendimento, com a família, a equipe médica, o eventual representante legal. Especialmente ao advogado, por ser normalmente estranho ao contexto hospitalar, ter presente a especificidade, a delicadeza e a fragilidade que envolvem este ambiente, os sentimentos em jogo e os valores particulares, que muitas vezes se confrontam, de uma série de atores: o paciente, os seus familiares, os médicos, os enfermeiros.


Montepulciano, 29 de março de 2007

sábado, 17 de novembro de 2007

Outra estação


Vejo o outono transformar-se em inverno. Assim, num piscar de olhos, no instante de um bocejo. Da janela da casa toscana, espio os ciprestes que se inclinam solenemente à força do vento. Meus olhos alcançam os vinhedos logo ali, ramos nus, já desprovidos das folhas amarelas e vermelhas. Esplêndidas cores de um outono fugaz, que deslizam à terra sem dar aviso, sem despedida.

Quando vejo, é inverno. O jardim mais triste, mais austero. Ao longe, os picos das montanhas cobertos de neve. A lenha sendo consumida diariamente, crepitando sob o fogo, espalhando seu cheiro forte pela casa. Doce aconchego do lar, a manta no colo a aquecer as páginas do livro, ou sobre os ombros a embrulhar quem escreve.

Mas a melancolia bate à porta, espreita-nos por entre as frestas da janela, teima em querer entrar. Sensação de adeus, de coisas que não voltam mais, de um ciclo que se fecha, a ansiosa expectativa de um novo recomeço. Outra estação.

Não, nos deixe estar. Ainda um pouco, somente. Protegidos, escondidos em nosso refúgio. Casa no fim da estrada, depois da descida, virando a curva. Redoma fora do tempo e do espaço.


Letícia Möller
Montepulciano, 17 de novembro de 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O PLIMP é Fato Literário!


O Fato Literário é uma premiação anual que ocorre no período da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, premiando instituições, projetos e personalidades que se destacam pela sua atuação no mundo das letras, no incentivo da leitura, na facilitação do acesso aos livros. O anúncio da premiação de 2007 foi feito no último 11 de novembro, no fechamento de mais uma edição da longeva (e esperamos eterna) Feira do Livro da capital gaúcha.

Vencedor do Prêmio Fato Literário 2007 na categoria “projeto” pela votação do júri oficial, o Projeto Literatura Infantil e Medicina Pediátrica: uma aproximação de integração humana (PLIMP) consiste em uma iniciativa das faculdades de Letras e Medicina da PUCRS, que tem por objetivo levar a magia dos livros às crianças internadas pelo SUS no Setor de Pediatria do Hospital São Lucas da universidade, através da narração de histórias realizada por alunas do curso de Letras.

As crianças internadas encontram-se forçosamente afastadas de sua normal rotina escolar, de seus amigos e professores, de seus jogos e dos livros. O projeto, assim, do qual tive a felicidade de participar durante o ano de 2002 (embora não fosse aluna da Letras, mas uma “estrangeira” vinda do Direito), busca atuar no sentido de mitigar os efeitos do afastamento provocado pela internação, possibilitando às crianças ouvir histórias fabulosas, imaginar mundos diferentes, soltar sua fantasia, entrar na atmosfera mágica (e curativa) dos contos de fadas.

A merecida premiação chega no ano em que o PLIMP comemora 10 anos de existência, graças à idealização e coordenação da Profa. Dra. Solange Medina Ketzer, bem como graças ao trabalho contínuo, feito com amor e convicção, pela Profa. Dra. Maria Tereza Amodeo, que atua diretamente ao grupo de “contadoras de histórias”, partilhando não apenas de suas alegrias, dos momentos belos e gratificantes, como também dos momentos de dúvida, impasse e tristeza que inevitavelmente surgem quando se atua em um ambiente delicado como aquele hospitalar e pediátrico. E, sobretudo, guiando um trabalho que, longe de efetivar-se apenas nas periódicas sessões de narração no hospital, exige preparação e envolvimento (profissional e afetivo) muito mais amplos.

O Prêmio Fato Literário 2007 ainda premiou, na votação pelo júri oficial na categoria “personalidade”, o excelente escritor e contista gaúcho Sérgio Faraco; e na votação pelo júri popular, o Projeto Ler em Casa, bela iniciativa da Prefeitura de Picada Café que faz circular sacolas repletas de livros por todas as residências do município.