quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mais de Cecília


Tomo nos olhos delicadamente


(Cecília Meireles, Solombra)


Tomo nos olhos delicadamente

esta noite - jardim de puro tempo

com ramos de silêncio unindo os mundos.


Tudo quanto quisesse aqui se encontra:

nos arroios de estrelas - pelos bosques

onde há risos (e próximos soluços?).


Sinto perfume e orvalho - imagens tênues

que inventa a solidão para fazer-se

de repente saudade. E vejo em tudo


essas cansadas lágrimas antigas

essas longas histórias sucessivas

com seus berços e guerras - glórias? - túmulos.


Recolho a noite em minhas pálpebras.



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ninho

* * *

Da vidraça espio quieta a construção do ninho. Quero-me invisível, a não turbar o labor amoroso. A nova estação desabrocha novos cuidados e afetos. Incessantes vôos de partida e retorno. A ponta do bico carrega mais um pedaço que acolhe a vida. Materialidade de um começo. Solene e muda atrás da vidraça espio a dedicação sábia, a arquitetura precisa. Oculto-me, não faço ruído. Quero absorver a natural confiança de cada pouso, de cada novo vôo, cada movimento consciente e cristalino. Pensativa na vidraça sigo a construção e carrego-te comigo. É tempo de eu também, amor, construir teu ninho.

* * *

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Saindo do forno


Divulgo aqui a publicação da obra coletiva Bioética e Responsabilidade, que tive a honra de co-organizar ao lado da Profa. Dra. Judith Martins-Costa. Pelo selo da Editora Forense. Segue resumo:

Nesta obra reúnem-se autores nacionais e estrangeiros analisando a bioética e as questões suscitadas pelo progresso biotecnológico pelo prisma da responsabilidade, noção central que atua como o fio condutor a perpassar as diferentes abordagens. Trata-se da responsabilidade em suas dimensões ética, social e jurídica, como noção voltada ao presente e ao futuro, às sociedades contemporâneas e à tutela das futuras gerações. A obra une textos de cunho filosófico e de fundamentação ético-jurídica a textos que buscam enfrentar, por meio da dogmática jurídica, a complexidade de questões específicas – tais como a pesquisa em seres humanos, o consentimento, a clonagem, o acesso ao material biológico humano, as informações genéticas, o diagnóstico pré-implantatório, as patentes, o fim da vida –, resultando em importante contribuição a orientar reflexões e fomentar debates que envolvem múltiplos campos do saber, como o direito, a filosofia e as ciências da saúde.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Justiça para Flávia



A trágica história de Flávia e a luta de sua mãe, Odele, já estiveram no efêmeras letras. Leia aqui.


sábado, 23 de agosto de 2008

As ruas da cidade

Já não reconheço as ruas
quando meus passos percorrem a calçada antiga.
As pedras as mesmas, as mesmas árvores,
o sabiá e o lilás das campainhas.

Do velho armazém nada alterado
e em pé segue a casa do professor.
O céu anil do outubro na cidade
pinta de ares serenos a tarde.

Mas já não reconheço as ruas
quando piso meus passos pequenos
e respiro o concreto imponente e feio.

Quando vejo aquele homem na calçada
que dorme sobre nada e nada sonha
e aqueles que passam apressados indiferentes irados
e nada vêem.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Machado e Rosa

Aproveito para divulgar um evento bem interessante que ocorre neste mês, em 3 encontros nos dias 6, 13 e 20, mais um colóquio no dia 21, aqui em Porto Alegre - para quem se interessa sobre as interfaces entre a literatura, a ética, a filosofia, a psicologia, o direito...
Para mais informações e inscrição, www.filosofialiteratura.org




domingo, 3 de agosto de 2008

Bentornati

O blog andou em ..stand.by.. nos últimos tempos. Fechou 1 ano de existência assim, quase abandonado, sem direito a bolo nem vela. Correndo o risco, mal sabe ele, de encerrar atividades.

Mas as efêmeras letras repensaram e voltaram, com leves modificações: talvez menos expostas, com um acanhamento salutar. E mais esporádicas, pra não aborrecer demais ninguém e pra permitir a conclusão de uma tese que se prolonga já uma insensatez.

Bentornati, dunque, aqueles que ainda não tenham desistido.

Abraços.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O quarto, uma varanda

Nestas manhãs porto-alegrenses feitas de bruma, o pensamento escapa do aqui e do agora. A manhã se faz noite, a cidade some entre espessa névoa. O concreto transformado em mar imenso, o quarto uma varanda para outros mundos. Viajo com Cecília.

Distância
(Cecília Meirelles)

Quem sou eu, a que está nesta varanda,
em frente deste mar, sob as estrelas,
vendo vultos andarem?

Sabem, acaso, os vultos, quem vão sendo?
Sentem o céu, as águas, quando passam?
Ou não vêem, ou não lembram?

Como alguém deste mundo para a lua
dirige os olhos, meditando coisas
e assim no vago mira.

- Para este mundo vão meus pensamentos,
tão estrangeiros, tão desapegados,
como se esta varanda fosse a lua.

(em: Mar absoluto e outros poemas)