ANA CRISTINA CESAR, ANA C.
(poesia de Cintia Thomé)
Esculpo saudades
Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus, foi uma religiosa e escritora espanhola, uma das grandes personalidades místicas de todos os tempos. Considerada um dos grandes gênios que a humanidade já produziu. Mesmo ateus e livres-pensadores são obrigados a enaltecer sua arguta inteligência, a força persuasiva de seus argumentos, seu estilo vivo e atraente e seu profundo bom senso.
Difícil explicar em palavras as emoções que brotam diante da sua poesia, aliás, também como a poesia do seu "irmão" São João da Cruz, ambos figuras preponderantes do “siglo de oro” da poesia espanhola e da nossa cultura, independentemente da religião. É venerada como Padroeira dos Poetas e comemorada no dia 15 de outubro.
De personalidade ao mesmo tempo ingênua e sutil, mansa e combativa, usando uma linguagem popular, cheia de graça e de doçura, com um coração que nunca deixou de bater humanamente, apesar de abrasado de amor divino. Difícil escrever sobre essa fome de absoluto que atormentou Teresa, que enfrentava com desencanto o vazio da eternidade, numa espécie de êxtase às avessas...
VERSOS NACIDOS AL FUEGO DEL AMOR
Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.
Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.
(Teresa de Ávila)
Fiz este poema depois de ler Teresa de Ávila:
Nada...
Chove outra vez
Em mim
Outra vez se faz noite
Mais uma vez me quedo
Diante do meu nada...
Sombra
Mais uma vez
Sou sombra
Mais uma vez sozinha
As minhas mãos vazias
Dor
Choro outra vez
Na noite
A noite me devora
A noite dói em mim
Cansei
Não posso mais
Quero voltar atrás
Mas lá não há mais nada
Na minha frente
Nada...
Bate
Meu coração inquieto
Meu coração não sabe
Que ele anda sozinho
Meu coração não sabe
Que também não é nada...
Olho
Meus olhos no espelho
Pensam que brilham
Os meus olhos não sabem
Que não há brilho
Quando a alma se esconde
E não reflete nada...
Noite
Não há ninguém lá fora
E aqui dentro nada
Os meus olhos cansados
A minha alma aflita
Tremo de medo e frio
Os meus olhos vazios
Diante do meu nada...
Vida
Por que não foi...
Vida
Por que não é...
Vida
Por não volta...
Vida
Por que é nada?!
(Nydia Bonetti)
Uma singela homenagem à Padroeira dos Poetas. Que ela interceda por todas as mulheres e todos os poetas!

Eis a verdade…
Já faz algum tempo que não conversamos. Por isso, quando pensei numa mulher, pensei nela. Estava com saudades. A correria do dia-a-dia e as preocupações do cotidiano tolhem, por vezes, aquele bom recolhimento pessoal, quando nos encontramos com nós mesmos. E Edith sempre foi uma discreta e forte companhia nestes meus momentos de silêncio interior, tão cheio de vozes, dúvidas, esperanças. Momentos eloqüentes que devo retomar. Eles trazem equilíbrio. Nos inundam de uma suave paz.
Refiro-me a Edith Stein. Ela nasceu em Breslau (na época, pertencente a Alemanha, hoje Polônia) em 1891. Filósofa, discípula de Edmund Husserl, de origem judia. Sua busca pelo conceito da “Verdade” passou do racionalismo acadêmico à experiência pessoal. Da Fenomenologia, defrontou-se com a I e II Guerra Mundial e, com elas, a perda de amigos. Paradoxalmente, uma sensível perda que, por caminhos diversos, a levou ao encontro da obra “O Livro da Vida”, de Teresa de Ávila. Ao finalizar a leitura do livro, diz a si mesma: “Esta é a Verdade”. Entra para a vida carmelitana aos 42 anos de idade, chamando-se, a partir de então, “Teresa Benedita da Cruz”. Refugiou-se da perseguição nazista no Carmelo de Echt, Holanda. Em 9 de agosto de 1942, morre no campo de concentração de Aushwitz.
Já faz algum tempo que não conversamos, mas já faz muito tempo que, direta ou indiretamente, sinto sua coragem. Não falo, aqui, de religião ou linhas filosóficas. Penso na plenitude de “ser”, no desafio de uma mulher que, na sua época, passou da Filosofia ao Holocausto. Edith nos faz lembrar que o verbo “acreditar” é pleno de movimento e desafios. Aceitar a si mesmo neste emaranhado de perguntas interiores é a resposta mais difícil de encontrar. E ela, Edith, foi uma mulher que, ao desafiar, pacificou dúvidas, alimentou esperanças. Diz-se que o seu foi um “Holocausto de Amor” para aquele tempo escuro da humanidade. Seu exemplo traz luz. E ser mulher é ser luz, que nunca há de se ocultar.
Cristiane Avancini Alves
Formada em Jornalismo pela PUCRS em 1999 e em Direito pela UFRGS em 2001. Mestre em Direito Privado pela UFRGS em 2005. Atualmente, é Doutoranda em Ciências Jurídicas pela Scuola Superiore Sant’Anna em Pisa, Itália.
Florbela Espanca (1894- 1930)
