segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sentimentos incômodos em tempos hedonistas


Há sentimentos que requerem tempos longos. Pedem recolhimento, reflexão, respiro. São sentimentos que parecem obsoletos, nos dias que correm. Não lhes concedemos espaço, não mais os toleramos.

O sofrimento, as dores da alma, a perda, a tristeza, aparecem hoje como elementos estranhos, um pouco vergonhosos, fonte de certo constrangimento. Sentimentos a abafar ou prontamente superar, de preferência a nem deixar emergir, em consonância com um fácil e imediatista “pensamento positivo”, desejoso de afastar tudo o que possa turbar nosso assentado-ser. Numa sociedade marcada pelo individualismo, pela cultura do hedonismo, do consumo e das aparências, é como se houvesse um acordo tácito de não trazer à tona tão incômodos sentimentos.

O espírito do nosso tempo não acolhe bem a expressão do sentimento de dor e de perda e o compartilhar desse sentimento, quando o que importa são nossas vidas individuais autocentradas, nossas trajetórias projetadas ao êxito, à autoexaltação e a um bem-estar conformista. O sofrimento, a dor psíquica, a tristeza, têm sido banidos do meio social e banidos dos sentimentos dignos de serem sentidos e vividos. Numa sociedade regida por um paradigma de utilidade na relação com os outros, enfraquece-se a noção de alteridade e fragilizam-se os laços sociais. Paradoxalmente, exalta-se a existência (própria), ao mesmo tempo em que se banaliza a existência (do outro, sobretudo).

Engolfados pelo hedonismo e consumismo contemporâneos, acabamos por habituar nosso modo de sentir ao atual esquema de mundo, numa padronização não apenas dos modos de viver e se comportar, mas também do modo de sentir e externar (ou não) nossos sentimentos. O sofrimento é visto como perturbação da normalidade desejada e da autoimagem aspirada ou projetada, e passa, assim, a ser cada vez mais objeto de medicalização, tratado com psicofármacos.

Nesse contexto, também o consolo perde espaço, tornando-se artigo raro. À exceção do âmbito religioso, onde talvez o consolo e o conforto ainda sejam mais habitualmente praticados, parece ter havido uma forte redução da capacidade das pessoas de ofertar alento, a qual deveria ser precedida por outra postura em desuso: a de ouvir verdadeiramente. As frases de entusiasmo, de rápida superação, ainda que bem intencionadas, não escondem o constrangimento de quem as profere, e frustram aquele que sofre e que gostaria de não ter minorada a razão de seu sentimento, mas antes de ser ouvido e amparado.

Estas linhas conscientemente amargas não desejam, em absoluto, fazer uma apologia do martírio. Querem apenas refutar a ideia de que o sofrimento por determinadas situações ou perdas configura-se como atitude irracional, incompreensível ou fruto de fraqueza.

Nem todo sofrimento é irracional. A racionalidade pode manifestar-se de diferentes formas. Diante de uma perda, como a perda de uma vida em seu início, dar espaço à dor pela perda pode ser bastante racional, na medida em que sofrer por uma vida que se perde é reverenciar a vida. É reconhecer seu caráter de unicidade e irrepetibilidade. É dignificá-la, revestindo-lhe de significado.

Nem todo sofrimento é fraqueza. Aceitá-lo é aceitar a vulnerabilidade da condição humana, vulnerabilidade que nos faz humanos, sendo ponto de partida para a reflexão filosófica e a produção criativa. Há muita força no sofrimento; é preciso força para aceitar, acolher e lidar com as nossas próprias dores, angústias e incertezas.

Nem todo sofrimento é patológico. A tendência de excessiva medicalização do sofrimento pode resultar numa autolimitação do sentir, além de conduzir à perda da noção de um sentido subjetivo do sofrimento, necessário para o reencontro consigo mesmo, com sua historicidade, singularidade e valores. A progressiva superação da dor e da perda passa pela compreensão ou pela construção de sua significação pessoal.

Acolher os momentos dolorosos com mais naturalidade, e ao mesmo tempo com mais profundidade, é encarar sua vivência e enfrentamento como processos necessários para o reconectar-se conosco, com nossa identidade e subjetividade, com o que de fato importa em nossas vidas.



Porto Alegre, março de 2012.

Publicado originalmente no site Artistas Gaúchos, em 04/04/2012.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

FestiPOA Literária 2012



Bom viver em Porto Alegre nestes dias.
5a edição da FestiPOA de 18 a 28 de abril.
Acesse a programação em festipoaliteraria.blogspot.com

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terça-feira, 3 de abril de 2012

Carta da AEILIJ à Exma. Sra. Ana de Hollanda, Ministra da Cultura



Carta da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, endereçada à Exma. Sra. Ana de Hollanda, Ministra da Cultura

Nós, da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, AEILIJ, vimos por meio desta, tornar público o nosso repúdio a qualquer alteração na lei de Direito Autoral que prejudique o direito, garantido pela Constituição Federal, do criador sobreviver com os frutos de seu trabalho.

Embora a versão do projeto de reforma da LDA que se encontra na Casa Civil não tenha sido disponibilizada ao público, a todo o momento surgem notícias na imprensa de que várias formas de utilização não autorizada pelos autores poderão ser permitidas por lei, o que é motivo de insegurança para todos nós. A liberação de cópias integrais de obras para fins “educacionais”, por exemplo, fere o direito do criador, uma vez que, diferente do que tem sido dito, é uma fonte geradora de proventos financeiros para todos aqueles envolvidos no processo, à exceção do próprio criador.

O compartilhamento gratuito de cópias digitalizadas na internet, apesar da boa intenção do usuário, certamente prejudicará as vendas dos livros, como já foi visto na indústria fonográfica. Requeremos atenção especial a este caso, e que qualquer solução apresentada seja antes discutida com os autores, em vez de imposta em forma de lei.

Entendemos que o objetivo deste ministério é incentivar a produção artística e cultural do país, mas lembramos que, para isto, são necessários criadores. Retirada, através da liberação de formas de utilização não autorizada, a possibilidade de sobrevivência através da exploração econômica do seu trabalho, restará aos criadores apenas a discutível alternativa do mecenato (que a História nos mostra, sempre foi um grande limitador da liberdade artística).

Para incentivar a produção de cultura é necessário proteger o autor original. Este é nosso desejo, este é nosso direito.

Atenciosamente,

Hermes Bernardi Jr.
Presidente
AEILIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil
presidencia@aeilij.org.br
http://www.aeilij.org.br/

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quarta-feira, 28 de março de 2012

Comenda Lobo da Costa

Na última segunda-feira, 26 de março, às 19 hs, em solenidade realizada no Museu Julio de Castilhos, a Sociedade Partenon Literário homenageou um grupo de artistas gaúchos, entregando-lhes a Comenda Lobo da Costa. Tive a honra de integrar o grupo agraciado, por uma inusitada e generosa lembrança da Sociedade e de seu Presidente, o escritor e ativista cultural Benedito Saldanha.

Recebendo a Comenda das mãos do escritor Benedito Saldanha.


Receberam a Comenda Lobo da Costa - Edição 2012: Diego Petrarca (poeta e professor), Elroucian Motta (poeta), Bianca Obino (cantora), Lilia Manfroi (poeta e artista plástica), Jerônimo Jardim (cantor e compositor), José Renato Leão (diretor teatral), Márcio Gobatto (produtor cultural), Vera Salbego (poeta e professora), Alcir Nicolau (escritor), Airton Pimentel (cantor), Aury Hilário (músico), Nestor Monastério (diretor teatral), Landro Oviedo (professor), Ademir Bacca (poeta) e Letícia Möller (escritora).

A Comenda recorda Francisco Lobo da Costa (1853-1888), importante nome da poesia romântica gaúcha do século XIX. Lobo da Costa nasceu em Pelotas, onde faleceu precocemente. Dedicou-se não só à poesia, mas também ao jornalismo, à ensaística e à dramaturgia, e foi membro integrante do Partenon Literário.

Francisco Lobo da Costa

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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Bianco

Mi ritrovo in questa bianca solitudine
che sa di vento e di traccie
nel silenzio.

Il cuore si allegerisce
in questa pace improvisa.

Il pensiero non trova confine
nelle ampiezze morbide
dove viaggia lo sguardo.

È poetica la neve,
rissuona di altri tempi e persone
nel paesaggio immobile.

Io resto ferma
come una statua antica di marmo bianco,
le labbra petrificate quale il gelo.

Sono solo silenzio e pensiero
e sogni sfuggenti.
Non mi muovo per niente.

Quasi non respiro.

Voglio stare cosi.


Letícia Möller
Pienza (Itália), 08 febbraio 2012

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Andei lendo...

Nos últimos meses, andei lendo...

Emma, de Jane Austen
O complexo de Portnoy, de Philip Roth
Os tambores silenciosos, de Josué Guimarães
Rastros do verão, de João Gilberto Noll
Um barril de risadas, um vale de lágrimas, de Jules Feiffer
Diário da queda, de Michel Laub
Rumo ao farol, de Virgina Woolf (excelente...)
Ad occhi chiusi, de Gianrico Carofiglio
Escrever é um ato de amor, Josué Guimarães (coleção Autores gaúchos/IEL)
Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler

E estou começando...

O caminho para a liberdade, de Arthur Schnitzler

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre


No próximo domingo, 30 de outubro, às 15 hs, estarei na área infantil (Cais do Porto) da 57a Feira do Livro de Porto Alegre, autografando o meu novo livro infantil, "Corre, Pedro, corre!". Fica o convite! Serei grata pela presença.

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Escritos no cair da tarde

Os últimos raios de sol despedem-se, os vejo aqui, da janela do quarto, em seu esplendor final. Já nem se derramam mais sobre o campo de trigo, que agora repousa na sombra, agradecido pela trégua, assim imagino. Há pouco caminhei por entre os passeios, o livro na mão, e aproximei-me da cerca, erguendo-me na ponta dos pés, para espiar o efeito leitoso do sol poente sobre o trigo. Então retornei ao meu quarto, pois gosto de refugiar-me do crepúsculo antes que atinja seu ápice e por fim o dia se faça noite, busco proteção da melancolia que invade a terra na medida em que o horizonte desvanece no avançar da escuridão.

Estou distante de casa 500 quilômetros. Distante de meus afetos também. Ainda assim, tenho esse sentimento persistente de sentir-me no meu chão. Não sinto estranha a paisagem, esse território, sua gente, culturas e cultivos. Sinto-me muito próxima. O campo ondulante, a soja, o trigo, o sol dourando o solo e as folhas, o céu do entardecer de um azul pálido e imperturbável, apenas decorado por uma lua cheia de contornos perfeitos, como se tivesse sido desenhada tendo por molde uma moedinha, e recortado o papel branco com esmero extremo, para ser colada enfim a essa imensidão de delicado azul, como a criança que cola uma figura no desenho do caderno, cuidando para fazer tudo bem feito e agradar a professora.

Tudo isso me é familiar, ah, tão familiar, e sentido com tal intensidade, que sinto a memória a dar-me pequenas fisgadas na alma, e o coração palpitante, que ora parece expandir-se a imitar a amplidão do campo, num transbordamento de sensações, ora parece contrair-se abruptamente, como que capturado por uma lembrança remota que se mantivera ocultada da mente. Uma lembrança valiosa, que por muito tempo ficara escondida e só agora, de súbito, emerge das profundezas e se impõe e me envolve e arrebata sem pedir licença. E então tenho um pensamento estranho: que talvez exista um lugar para as lembranças mais valiosas, um espaço sagrado e desconhecido onde se alojam em silêncio as coisas mais queridas, as memórias mais preciosas, os sentimentos mais autênticos, e que são, por isso mesmo, os mais doídos. Para de repente voltar, fazendo recordar... do quê, exatamente? Da nossa essência, penso.

Estando aqui, invade-me a memória do campo da família, onde passava férias na infância, longe dos meus olhos há tantos anos, já esquecido da minha presença e dos devaneios que eu semeava em cada canto. Lugar onde ousei sonhar mais alto, loucamente e corajosamente, tecendo meus desejos mais intensos de menina. A literatura, a palavra lida e escrita. O amor a que eu ansiava, o amor forte, sereno e seguro de si com que sonhava, o amor que... meu Deus, encontrei! A delicadeza do mundo, que eu desejei nas caminhadas pelas coxilhas, delicadeza rara, apenas por vezes encontrada – e então sentida como um pequeno tesouro.

Cresci e não retornei àquele campo que amava e ainda amo. Vivi tantas coisas, mas não deixei de ser aquela menina das férias na fazenda. Olho-me no espelho e vejo a distância que me separa da menina, é inegável, mas me sinto ainda a mesma, a percorrer caminhos de pasto e terra pendurando sonhos nos galhos dos eucaliptos, declamando desejos aos ventos. A literatura não se afastou de mim, ela permaneceu sempre ao meu lado, ou mais que isso, dentro de mim, pulsando forte e constante. O sonho tão acalentado de ser escritora concretiza-se um pouco mais a cada dia. A delicadeza que eu queria que me rodeasse e protegesse... por vezes parece evaporar-se no caos e no ruído da cidade grande. Mas eis que retorna, mostrando que erro na minha melancolia recorrente, que há ainda beleza, respeito, afeto, estima, gentileza.

A delicadeza, esse tesouro raro, eu hoje a encontrei, casada com o amor pelas palavras e pelas histórias. Aqui em Giruá, no extremo noroeste gaúcho, longe de minha casa e dos meus afetos, aqui a delicadeza das pessoas, da paisagem, do ritmo da vida, da melodia da natureza, fez com que me sentisse integrada, repousada, reconciliada comigo. Envolta por eflúvios amorosos e pela mais perfeita – ainda que frágil – paz de espírito.



Letícia Möller
Giruá, 10 de outubro de 2011

Texto gestado durante visita a Giruá como escritora convidada da 3a Semana Literária

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

O cinema, a bioética e a ética médica


Noticio o recente lançamento do livro The picture of health: medical ethics and the movies, publicação da Oxford University Press, NY, e organizado pelos Profs. Henri Colt, Silvia Quadrelli e Lester Friedman. A obra reúne 80 ensaios, de autores de diferentes nacionalidades, abordando 80 filmes que retratam variadas questões bioéticas e de ética médica. O livro é destinado sobretudo ao uso em sala de aula, para o ensino de ética médica, mas pode ser apreciado por todos que se interessam pela sétima arte e pelos temas sempre instigantes e complexos da vida e da morte, da saúde e da doença, das pesquisas com seres humanos, da relação médico-paciente, do uso da tecnologia, etc.

Tive a honra de integrar a obra, escrevendo capítulo sobre o belo filme Invasões bárbaras, do diretor canadense Denis Arcand.

O livro pode ser adquirido pelo site da Amazon.

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