segunda-feira, 12 de maio de 2008

Espelho

(poesia de Dolores Mascarenhas Cantera de Campos,
extraída do livro “Serpentinas”, 1998)



Não quero ser outra
quero ser a que sou
olhando-me no espelho.
Por que?
- ando me buscando
pesquisando
descobrindo
em cada côncavo da alma.
Sou rica
nas emoções que sinto –
meus pensamentos de paz.
Tenho identidade – ternura – sonho
vontade de voar.
Nem sempre me reconheço –
as imagens deformam
o contorno do coração.
Quando os olhos parecem calmos
existe um vulcão no meu silêncio.
E o riso –
a luz que cintila na lâmina prateada?
- é a ânsia de abraçar
sentir-me humana
confiante
bela –
o amor fluindo do sorriso
e eu – sendo eu...



Dolores Mascarenhas Cantera de Campos
Nasceu em Bagé/RS. Poeta. Fez seus estudos na terra natal e no Rio de Janeiro. Cursou o Instituto de Belas Artes, diplomando-se em História da Música, Harmonia e Piano. Tem poemas premiados. É autora dos livros Poesias (1944), Carícia (1954), Malacacheta (1981) e Serpentinas (1998). Seu quinto livro, Círculos, tem publicação prevista para este ano.
E também é minha avó!

sábado, 3 de maio de 2008

Hatoum em Porto Alegre


Foi muito bacana, na semana passada, o bate-papo com Milton Hatoum na Livraria Cultura de Porto Alegre, mediado pelo Luís Augusto Fischer (e que contava na platéia com a presença do Veríssimo). O encontro se deu por ocasião do lançamento do novo livro do escritor amazonense, a novela Órfãos do Eldorado (Ed. Companhia das Letras). Hatoum falou, entre uma porção de coisas, sobre seu processo criativo, caminhos e escolhas literárias, influências iniciais, o encontrar seu próprio estilo e sua própria linguagem, o papel dos mitos na sua narrativa, sobreviver como autor (escrever pelo menos 30 livros, como aconselhava Jorge Amado, para se poder viver de direitos autorais? Complicado...), o tema da Amazônia e de Manaus, tão presentes nas suas obras, e a vontade, agora, de um distanciamento, seguir por outras trilhas.

Confortante, para quem escreve, escutar Hatoum falar da eventual sensação de inutilidade quanto àquilo que se está fazendo, a escrita literária (o mesmo valendo para a escrita ensaística ou acadêmica, diga-se...). Meses e anos de dedicação a algo que para as pessoas é invisível... sensação ingrata de não-trabalho, inatividade. Penso: até que a gestação termine e chegue o tão aguardado e acalentado momento do parto, a publicação, o lançamento; mas então, a perigosa expectativa de algum reconhecimento, seguidamente frustrada. Bem, é claro que Hatoum não foi tão longe (essas não devem ser preocupações de um autor consagrado), sou eu agora que devaneio e remôo pensamentos...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

No ouvido

(Letícia Möller)
Sarah Klockars-Clauser, amarylis, 2007 - Open Photo


Queria que me dissesse
(baixinho)
o motivo do teu sorriso,
que te ver assim festivo
faz meu peito transbordar.

Queria que me sussurrasse
(no ouvido)
a razão dos olhos límpidos
para que eu possa, querido,
também minha alma aclarar.

Vou te pegar pela mão,
vou te levar bem distante
desde que tu me contes
da felicidade toda.

Porque ando precisando
(benzinho)
teu afago, beijo, carinho
que me digas o mundo é lindo
para a gente que se ama.

O resto são pequenezas
(são cinzas),
frágeis enganos da mente.

São resíduos somente.


quarta-feira, 16 de abril de 2008

Fórum de Literatura Infantil e Juvenil

Divulgo a programação do 2º Fórum Estadual de Literatura Infantil e Juvenil do Rio Grande do Sul, realização das Secretarias de Cultura e de Educação de Porto Alegre, e no qual estarei presente (assistindo):

Datas: 18 e 19 de abril de 2008
Local: Teatro de Câmara Túlio Piva
República, 545 – Cidade Baixa
Porto Alegre/RS
Informações: f. (51) 3289-8072
Site: www.portoalegre.rs.gov.br/cultura
Inscrições no Centro Municipal de Cultura


PROGRAMAÇÃO

18 de abril (sexta-feira)

08:30-09:30
Credenciamento e distribuição de material

09:30-10:00
Abertura

10:00-12:00
Palestra de abertura:
Leitura de Literatura: escrita e escuta

Profa. Marly Amarilla (Universidade Federal do RN)

13:00-18:00
Visitação à Mostra de Literatura Infantil e Juvenil
da Associação Gaúcha de Escritores (AGES)
Programação interativa especial: exposição de banners, colóquios breves com escritores

18:30-20:00
Painel: Qualidade do texto: as diferentes leituras
Criança leitora / Jovem leitor(a)
Profa. Vera Teixeira de Aguiar (PUCRS)
Escritora Anna Claudia Ramos (AEI-LIJ)

19 de abril (sábado)

08:30-11:30
Oficinas
- Como trabalhar com Narrativas (Caio Riter – RS)
- Oficina de leitura de Poesia (Elaine Maritza – RS)
- Práticas para o trabalho com Literatura Infantil e Juvenil (Christina Dias – RS)
- Práticas de Leitura Oral (Mirna Spritzer – RS)
- Criança e Poesia (Telma Scherer – RS)
- Como formar e dinamizar Pequenas Bibliotecas (Nóia Kern – RS)
- Criança e Poesia (Marta Gusmão – MG)
- Técnicas para o trabalho com Literatura Infantil e Juvenil – Celso Sisto – RS)

13:00-16:30
Oficinas
(as mesmas da manhã)

17:00-18:30
Painel 2: Políticas de Leitura: investimento cultural
Programa “Livro Lido” (Cachoeirinha)
Programa “Livro meu” (Caxias do Sul)
Programa “Literatura Infantil e Medicina Pediátrica” (Porto Alegre)
“Jornadinha de Literatura” (Passo Fundo)

18:30
Encerramento

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Verso silenciado

(Letícia Möller)

Os versos deixaram
Mariana
sem aviso,
sem palavra.

Os versos deixaram
Mariana
no silêncio
do seu quarto.

Deixaram Mariana
naquela noite
sem lua
os versos todos.

No silêncio
Na dor
No escuro do quarto
Mariana já não lembra.

Para onde foram
os cantos de amor,
o cotidiano sublime,
a plenitude da vida,

a poesia a invadir a alma?

Cecília, Lila, Florbela.
A voz das poetas
na bruma da noite
calada.

Arrancaram os versos de Mariana.
Extirparam a beleza,
Ancoraram a tristeza
Sepultaram a memória.

Para onde vai Mariana
sem os versos seus?

Mariana
no escuro
no silêncio
do quarto

... não sabe.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Prêmio Lila Ripoll de Poesia


Divulgo aqui a notícia do Prêmio Lila Ripoll de Poesia 2008, instituído pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul com a finalidade de estimular a criação literária e a divulgação de novos talentos, e de recordar e celebrar a poeta gaúcha. Cada candidato pode inscrever-se com até três poesias. As incrições vão até 30 de maio.

Lila Ripoll (1905-1967), nascida na cidade de Quaraí, foi poeta, professora, jornalista e pianista. Colaborou com diversos jornais e revistas literárias e fundou o Grupo de Arte, destinado a promover espetáculos teatrais. Militou no partido comunista, e com o golpe de 64 foi presa, sendo depois libertada por motivo de doença, falecendo poucos anos depois.

Sua obra poética foi marcada pelo engajamento político e pela denúncia das desigualdades sociais e de gênero. Com o livro Novos poemas (1951), conquistou o Prêmio Pablo Neruda da Paz. Escreveu ainda, dentre outros: De mãos postas (1938), Céu vazio (1941), Por quê? (1947), Primeiro de maio (1954), Poemas e canções (1957), O coração descoberto (1961) e Águas móveis (1967).

Para mais informações sobre o concurso, acessar o site da Assembléia Legislativa do RS.

Ainda sobre Lila, no mundo digital se pode ler o artigo Uma paixão urgente pela poesia, escrito pelo Flávio Ilha para a Revista Aplauso, no ano do centenário do seu nascimento (2005): clique aqui.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Grandes Mulheres: Letícia Möller conta Nísia Floresta


Nísia Floresta (1810-1885)



Escritora e educadora, Nísia Floresta é considerada a pioneira do feminismo no Brasil.

Nascida em 1810 em Papari, no Rio Grande do Norte, filha de um advogado português e de uma brasileira, foi batizada com o nome de Dionísia Golçalves Pinto, mas iria adotar o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pelo qual ficou conhecida.

“Nísia é o final de seu nome de batismo. Floresta, o nome do sítio onde nasceu. Brasileira é o símbolo de seu ufanismo, uma necessidade de afirmativa para quem viveu quase três décadas na Europa. Augusta é uma recordação de seu segundo marido, Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se casou em 1828, pai de sua filha Lívia Augusta” (cf. Projeto Memória Viva).

A obra precursora de Nísia é marcada pela defesa dos direitos das mulheres, pela denúncia das condições de opressão vividas pelas mulheres no Brasil. Lutou por um ensino igualitário entre os gêneros, assim como também dedicou-se a escrever em defesa dos direitos dos indígenas e contra a escravidão dos negros, aderindo à causa abolicionista.

Aos 22 anos de idade, Nísia Floresta publica Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, em 1832, construído a partir do texto revolucionário da feminista inglesa Mary Wollstonecraft, Vindications of the Rights of Woman, publicado em 1792. A obra de Nísia, contudo, não se resume a uma tradução literal do texto de Wollstonecraft, sendo uma "tradução livre", onde Nísia adapta o texto à realidade brasileira. Como esclarece Constância Lima Duarte:

“ao invés de fazer simplesmente uma tradução, a autora brasileira aponta os principais preconceitos existentes no Brasil contra seu sexo, identifica as causas desse preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superioridade masculina. (...) Na deglutição geral das idéias estrangeiras aqui chegadas, era comum promover-se uma acomodação das mesmas ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as concepções de Mary e devolve um outro produto, pessoal, em que cada palavra é vivida, em que os conceitos surgem das páginas como algo visceral, extraídos da própria experiência e mediatizadas pelo intelecto” (DUARTE, Constância Lima. “Nísia Floresta Brasileira Augusta: Pioneira do Feminismo Brasileiro-Séc. XIX”. Disponível aqui).

Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens é considerado o texto fundante do feminismo no Brasil. Seu caráter pioneiro fica ainda mais evidente se pensarmos que foi escrito 100 anos antes que o voto das mulheres fosse permitido em nosso país!

Dentre 15 títulos de sua autoria, publicou Opúsculo Humanitário (1853), uma coletânea de artigos sobre a emancipação feminina, o qual recebeu a crítica positiva de Auguste Comte, o pai do positivismo. A troca de cartas entre ambos foi reunida em um volume organizado por Constância Lima Duarte e publicado pela EDUNISC (Cartas Nísia Floresta & Auguste Comte, 2002).

Nísia viveu por muitos anos na Europa, sobretudo em Paris, retornando ao Brasil para voltar novamente à Europa. Morre na França em 1885. Em 1954, seus despojos são transferidos para o Rio Grande do Norte.

O estudo de Constância Lima Duarte, Nísia Floresta: vida e obra (Natal: Editora da UFRN, 1996, 366 p.), apresentado em 1991 como tese de doutorado na USP, é considerado a mais completa biografia de Nísia Floresta.

Para a cronologia da vida de Nísia Floresta, clique aqui.

Para o elenco completo das sua obras, clique aqui.


Letícia Möller

Porto Alegre/RS. Advogada, mestre e doutoranda em direito, pesquisadora em bioética. Escreve crônicas, contos e prosas poéticas, que publica neste blog, no Overmundo e em algumas revistas digitais. Escreve também narrativas infantis e juvenis.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Grandes Mulheres: Karina Fleury conta Maria Antonieta Tatagiba

Maria Antonieta Tatagiba (1895-1928)

Nascida na bucólica São Pedro do Itabapoana, no interior do Espírito Santo, Maria Antonieta Tatagiba fez história para além da tríade esposa, mãe e dona de casa.

Destemida e impetuosa, não conseguiu realizar seu sonho de ser uma farmacêutica, mas fora professora, diretora de escola, poetisa, colaboradora de jornais e revistas capixabas e de Campos- RJ, além de assumir a direção de um jornal são-pedrense por quase um ano, do qual o marido era colaborador. Soube driblar a angústia e a frustração que poderiam ter-lhe sombreado a alma ao ver que seu desejo de se tornar diferente da maioria das mulheres de sua época não seria realizado. Substituiu os fármacos pelos poemas. Dedicou-se intensamente à produção literária e tornou-se a primeira poeta capixaba editada, em 1927 (um ano antes de ser vitimada pela tuberculose), com a publicação de "Frauta agreste".

Ao longo dos oitenta anos decorridos desde sua morte, Antonieta tem sido lembrada por estudiosos, escritores, amantes das letras capixabas que vêm revisitando, reconhecendo e reafirmando o valor literário de sua obra, sobretudo neste século, e a sua importância como representante feminina da poesia capixaba do século passado.


O RISO


Bendito seja o riso que aos negrores
Da vida, ao infeliz faz olvidar,
Como o vinho, adormece as nossas dores,
De quem sofre é conforto singular.

Disfarça o sentimento sob flores...
Padeces? Trazes na alma algum pesar?
Ri que o riso adormece as nossas dores
E nele um lenitivo hás de encontrar...

Riso é ironia – riso é esquecimento,
Aos tristes dá aspecto de ventura
E faz supor distante o sofrimento...

Riso – invencível arma de mulher
Que, rindo, docemente, com ternura,
Seduz o mundo inteiro, quando quer!

(Maria Antonieta Tatagiba)

Karina Fleury

Karina de Rezende Tavares Fleury nasceu em Vitória, Espírito Santo, em 1966. Formada em Letras e Direito, é professora da Prefeitura Municipal de Vitória, mestranda em Estudos Literários (UFES), pós-graduada em Teoria psicanalítica e práticas educacionais (UNIG). Publicou, em 2007, "Alma de flor- Maria Antonieta Tatagiba: vida e obra" (com o apoio da Academia Espírito-Santense de Letras e da Secretaria Municipal de Cultura- PMV).

Contato: karina.fleury@gmail.com.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8516679878288876

quarta-feira, 19 de março de 2008

Grandes Mulheres: Nydia Bonetti conta Lena Gal

Lena Gal

Nas minhas andanças pela internet, em busca de imagens para ilustrar meus “poeminhas” (postados no http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti), como costumo chamar os poemas que escrevo, quase sempre ligados à terra e à natureza, me deparei com uma tela que me impressionou. Primeiro pelas cores e pelo tom de terra, que já fascinam ao primeiro olhar. Depois pela suavidade e força das expressões e finalmente pela beleza dos títulos poéticos dados a eles. A tela se chamava: “Terra de Brisa Perfumada”, da artista plástica Lena Gal. Fique fascinada por esta pintura. Fui procurar mais informações sobre a artista e sua obra e encontrei o seu site. Minha admiração por seu trabalho só aumentou desde lá. O trabalho dela é incrivelmente belo, lírico e poético. "Pinta a mulher como tema de preferência, mas não de uma forma feminista, mas sim porque o feminino faz parte do seu universo, dela mesma."


"Terra de Brisa Perfumada"


"Mulher, mãe, amiga, a bordadeira, mulher de xales negros, de véus, mulher á janela, sentada à porta, conta-se contos, histórias, e sonhos, olha-se o mar, o horizonte, e espera-se, são as mulheres Terra - Mãe."

"Canto da Manhã"

E como a vida é movimento, qual não foi minha surpresa, quando recebo em e-mail de Lena, dizendo que uma amiga dela, nas suas andanças pela internet, encontrou meu poema “A Ilha”, e mostrou a ela. Lena disse ter ficado muito sensibilizada ao ler o poema, ilustrado por sua tela, pois “a ilha na sua alma universaliza-se na linguagem pictórica, estabelecendo um diálogo intimista, num figurativo poético, pessoal e de grandes alegorias”. Segundo ela mesma a pintura que faz é uma pintura consciente, vem da sua vivência e das suas memórias com forte ligação à terra, à ilha onde nasceu, E no caminho da sua imaginação de mistérios, da procura, e entre saudades e nostalgias inexplicáveis, cria-se nela uma inquietação que deságua na tela branca e nas cores terra.

Biografia (retirada de seu site): Helena Maria Galvão Amaral, artista plástica (Pintora) com o nome artístico de LENA GAL, nasceu em 1957 em São Miguel, Açores. Desde sempre ligada às artes: iniciou-se a partir dos 15 anos de idade com a colaboração em Jornais dos Açores com poesia, contos e temas regionais; em 1990/1 colaborou no Jornal de Sintra, na Página Feminina; freqüentou a Cooperativa de Gravadores Portugueses, a Sociedade Nacional de Belas Artes e a Arco. Considera-se, no entanto, autodidata. Além de utilizar a tela e o papel, dedica-se igualmente ao estudo das técnicas tradicionais de gravura em couro, dando assim início à pintura sobre o couro, com uma filosofia plástica e pictórica própria. Tenta evoluir através de pesquisas, e, nomeadamente introdução de novos processos. Participou em inúmeras atividades pedagógicas das quais refere: animação em expressão plástica, em escolas do ciclo preparatório básico e ateliês de tempos livres. Foi monitora no programa "Artes e Ofícios" do Projeto Sócio-Educativo do Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa. Foi convidada para apoiar ações pedagógicas sobre a Arte e o Couro no Liceu "Durfee" na Bishop Conrelly High School e na Universidade of South Carolina, Spartanburg - EUA.

Site de Lena Gal: http://www.lena-gal.com/
Estes poemas fiz inspirada pelas telas de Lena, que ilustram as postagens: http://www.overmundo.com.br/banco/na-terra-da-brisa-perfumada e http://www.overmundo.com.br/banco/ilha
* * *
Na Terra da Brisa Perfumada
(Nydia Bonetti)

Na terra
Da brisa perfumada
Há sóis vermelhos
Luas prateadas
E dunas
De areias douradas...
Os bichos são mansos
Os pássaros tantos
Gaiolas não há...
A brisa
Traz perfumes
De terras distantes...
(Rosais em flores)
Que se unem
Aos perfumes da terra...
(Alecrins dourados)
Terra de brisa
Leve
Terra de pássaros
Brancos
Cantos e voares
Multicores
Terra de tantos amores...
Quero ir para lá
Quem me levará

Nydia Bonetti
Campinas/SP. Engenheira Civil por profissão escrevo poemas como uma forma de amenizar a dureza do concreto e do aço e a exatidão dos traços e das fórmulas com que convivo diariamente, com o lirismo e a doçura das palavras perseguidos pelos os poetas...
nydiabonetti@bol.com.br
http://www.overmundo.com.br/perfis/nydia-bonetti

sexta-feira, 14 de março de 2008

Grandes Mulheres: Saramar Mendes conta Odele e Flávia

Odele e Flávia


Há uma mulher entre tantas que, como todas, carrega sua cruz.
É uma mulher do povo, nem musa, nem estrela. Nenhum poema de renome lançou em versos, sua luta.
Como tantas mulheres, de amor vive morrendo.
É planta, árvore madura e sadia repartindo sua seiva em goles fartos, em imensa doação.
Seu nome é Odele.
Quem a viu por aí chorando? Quem percebeu seu pranto, se nem tempo tem para verter em água, o golpe? Quem vê, da árvore o líquido brotando, de dentro, dentro ao sentir que lâmina crudelíssima quase lhe arranca um ramo?

Odele é mãe de dois lindos filhos: Flávia e Fernando que seriam como tantos outros filhos, não fora a dor que esta mãe carrega, e ainda assim, cada vez mais forte e mais bela em sua luta.
Odele é a mãe da “Flávia vivendo em coma”, como conhecemos a pequena flor, quase abatida no início de sua floração pela irresponsabilidade e a ganância.
Odele é também escritora e poeta, e publica seus textos em http://oficinadepalavras.blogspot.com/

A história de Odele e sua filha? Eu conto um pedaço: Flávia tinha apenas 10 anos quando seus cabelos foram sugados pelos ralos da piscina do condomínio, onde a família morava no bairro Moema, em São Paulo. Foi retirada da piscina e levada para a UTI do Hospital Santa Isabel, em coma. E assim permanece já há dez anos.

"Flávia segue inconsciente, em coma vigil. Abre os olhos durante o dia e os fecha à noite. Mas não interage com o meio ambiente e é completamente dependente para toda e qualquer atividade da vida. Ao longo dos anos, devido ao tempo em que fica imóvel vem adquirindo deformidades severas que torna o quadro ainda mais doloroso e difícil de cuidar" (Odele).

Odele luta há 10 anos por justiça. Há dez anos, espera, os braços fortalecidos na luta diária com seu raminho de frágil existir. Há dez anos, Odele luta, sem desistir.
Ela é meu exemplo de mulher.

Quer saber mais sobre Odele e Flávia? Visite-as em http://flaviavivendoemcoma.blogspot.com/

Em dezembro, escrevi este pequeno poema para Flávia


FLÁVIA, A FLOR E SUA ÁRVORE

Há uma flor profundamente adormecida

e a beleza de sua árvore.

como é a sina das árvores, esta vela

em força, também em dor.

Nem os ventos, os ventos frios dos dias,

que arrancam lamentos entre os ramos e as folhas,

perturbam a linda flor, em seu sono.

Qual princesa dorme a flor,

dos contos de fada, personagem.

Porém nenhum príncipe virá

com seu beijo de acordar

e nem o espera a princesa em flor.

A árvore, cuidadosa, vela.

Sua seiva milagrosa mantém a vida

da linda flor e seu sorriso raro.

A árvore espera que o vento se vá,

ainda que fique a dor.

Se não há príncipe a caminho,

há o dragão da injustiça

a ser combatido todos os dias,

único capaz de vergar a árvore e

deixar solta do ninho, a flor.

(Saramar Mendes)


Saramar Mendes
Funcionária pública, aprendendo a luta com as palavras.