sexta-feira, 11 de abril de 2014

O guri e o prazer de ler

É tempo de volta às aulas, e o guri se depara com o que o aguarda no ano letivo. Conteúdos, projetos, trabalhos, leituras obrigatórias. Os livros novos, com suas capas flamantes e cheirinho de recém-impresso, o encaram em pilhas sobre a mesa.

Os livros, que anos antes faziam o guri perder o sono de excitação e entusiasmo, e alisar as capas e espiar as páginas imaculadas, agora o intimidam. Antes objetos mágicos, a convidar a um mundo interessante a ser descoberto, agora apenas acenam com longas horas de tédio e aborrecimento.

Ele já sabe que ouvirá, também este ano, a clássica ladainha que não produz efeito, tantas vezes repetida: É preciso ler!

E, se algum efeito produz, não é certamente aquele desejado por pais e professores cheios de boas intenções. A Importância da Leitura, e mesmo o tão incentivado Prazer de Ler, quando enfiados goela abaixo encontram no guri um desertor - ou, na melhor hipótese, um leitor de cara amarrada.

É preciso ler! Para não ser ignorante. Para ser alguém na vida. E não só. É preciso ler e é preciso entender o que o autor (esta entidade enigmática) quis dizer. E saber o que a professora quer que ele entenda que o raio do autor quis dizer. E mostrar que entendeu na Ficha de Leitura.

Não é exatamente um apelo irresistível, nem canto sedutor de sereia. Quase inescapável que o guri verá a leitura como fardo, pura obrigação, tempo perdido por ser (assim ele pensa) um ato desconectado de si, privado de um sentido que lhe importe.

Daniel Pennac, em ensaio encantador intitulado Como um romance (L&PM), questiona a importância da leitura como dogma, e convida a que pais e professores partilhem, com paixão, o seu próprio prazer de ler. Uma ideia simples, mas com potencial revolucionário: “e se, em vez de exigir a leitura, o professor decidisse de repente partilhar sua própria felicidade de ler?”.

Claro é que os professores enfrentam certas limitações na autonomia de ensino, não podendo desconsiderar a bel prazer a exigência de leituras obrigatórias e avaliações. E talvez não seja isso, pura e simplesmente, nem desejável. Mas se houver, em sala de aula, um espaço, uma hora, vinte minutos numa sexta-feira que seja, para o professor partilhar com seus alunos a sua paixão pela leitura, falar de seus livros e autores favoritos e, fantástico, ler o primeiro capítulo de livros que ele tem motivos para imaginar que falarão, de fato, à emoção e às entranhas de seus guris e gurias, isso, sim pode angariar apaixonados pela leitura.

A gratuidade dessas leituras compartilhadas, quando nada é exigido (nada de perguntas, nada de fichas), quando não há o medo de não compreender, de não estar à altura do livro, essas leituras-presente, como as chama Pennac, e que podem ser feitas por pais e professores – têm grandes chances de romper barreiras, chamar de volta desertores e desfazer as caras mais amarradas. Do prazer gerado por essas leituras compartilhadas (em casa, na escola) virá o prazer solitário da escolha do seu livro, da leitura calada, secreta, só sua. E o que o autor quis dizer não será uma atividade assustadora de extração de sentido, mas um diálogo e um reconstruir subjetivo e livre.

Assim o espero e desejo, nesta noite fresca de março.


Coluna para o site Artistas Gaúchos
Março 2014

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Andei lendo...

Nos últimos tempos, andei lendo:

Os enamoramentos, de Javier Marías
Jogo da memória (juvenil), de Laura Bergallo
Senhor Lambert, de Sempé
Reprodução, de Bernardo Carvalho
Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector
Auto da fé, de Elias Canetti
Como um romance, de Daniel Pennac (releitura)
A arte da ficção, de David Lodge

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